14 dezembro, 2014

Alma Flamejante - Capítulo 6

Capítulo Cinco
Luta pela Sobrevivência
Tudo aconteceu de forma muito rápida, de tal forma que não se pensava em nada, mas sair correndo do cemitério que se tornara o Vilarejo da Pena. Zyi não conseguia pensar em nada além da morte de todos que estavam ali e a fuga em processo...
Naquela hora, Zyi sentiu fortes dores de cabeça. A sua mente começou a transitar entre o passado e o presente contra a sua vontade. A cena da invasão em curso estava trazendo à tona memórias indesejáveis para aquele jovem nobre.
Ele viu várias explosões, a morte de seus pais, que tanto doía nele, e, de repente, ele se pegou olhando mais uma vez para o próprio vilarejo destruído. Não havia coisa alguma que ele pudesse fazer além de fugir e rezar para que alguém tivesse sobrevivido.
Era muito difícil para todo aquele grupo abandonar as pessoas daquela forma. Zyi sentia-se inútil, fraco. Ele não ter conseguido nem, ao menos, defender as pessoas que participaram ativamente da vida dele era um pensamento que não parava de rondar em sua cabeça.
Zyi, Karin, Aya, Erin, Subaru e Ghan entraram na floresta que cercava o Vilarejo da Pena e procuraram um lugar seguro para acampar. Eles se afastaram o máximo possível do campo de batalha onde os gorgonites ainda estavam concentrados e sedentos por ainda mais sangue.
A floresta estava bastante úmida devido às recentes chuvas. Havia muitos pássaros que cantavam em alguns momentos. As árvores eram altas e as copas destas se encostavam de tal maneira que era difícil ver o céu, o que teria tornado a iluminação do lugar horrível não fosse a pequena fogueira que Ghan acendeu com magia. Fogueira que foi acesa rapidamente para que todos arrumassem um pequeno saco de dormir, os quais vieram junto com a mochila que Ghan dera para eles. Assim que o fizeram, a fogueira apagou-se deixando todos na escuridão.
O silêncio tomou conta do ambiente. A tristeza com o que acabara de acontecer seria visível caso eles conseguissem ver direito os rostos um do outro.
Os pensamentos convergiam para uma mesma direção: o Vilarejo da Pena, que poderia ser chamado, sem exageros, de Cemitério da Pena. Os gorgonites tinham despertado muita tristeza naquele grupo.
Num dado momento, o silêncio foi quebrado por um suave som de choro: Karin estava derramando lágrimas copiosamente. Zyi, ao ouvir o som, andou lentamente na direção da menina e abraçou-a numa tentativa de consolá-la. O choro dela era como um legítimo desabafo do sentimento que todos ali estavam sentindo, mas nada podiam fazer para arrebatar, a não ser observar tudo. E os prantos não paravam de escorrer.
– Será sempre assim? – soluçou Karin – A morte de pessoas completamente inocentes lutando com selvageria para tentar sobreviver... – disse ela, com a face totalmente encoberta pelas lágrimas em seu rosto que não paravam de rolar.
– Eu não posso prometer a você que isso não vá acontecer de novo – suspirou Zyi com tristeza – eu não posso afirmar que eu sempre sobreviverei a cada batalha da qual eu participar... – ele prosseguiu enquanto mexia nos longos cabelos louros dela carinhosamente com sua mão direita – Eu me sinto um completo inútil perante essa situação, mas há uma única coisa que eu posso te prometer: eu tentarei vencer com todo o meu coração e força! – ele dizia isso tentando aparentar uma calma que não estava sentindo – Irei tentar proteger vocês com toda vontade e energia que correr em meu sangue... – disse Zyi e, então, ele começou a chorar silenciosamente enquanto abraçava Karin, era o desabafo de jovens que estavam saindo de casa primeira vez.
Era muito duro para Zyi dizer essas palavras, ele estava fazendo o seu melhor para conseguir manter o foco, mas a mente dele estava em outro lugar, em outra época, em outra situação de dor... O passado do Zyi estava voltando como a marcha de um exército implacável, onde as memórias dele eram o próprio exército e ele era como uma pequena fazenda prestes a sofrer uma devastadora invasão.
Ele estava em estado de confusão. No entanto, ele sabia que tinha feito a escolha certa e se esforçaria ao seu limite para que pudesse ajudar aquele lugar a se reerguer um dia com a ajuda dos moradores que viesse a encontrar vivos, afinal, ele queria acreditar que pelo menos essa parte do diálogo dos gorgonites mortos mais cedo era real: havia sobreviventes.
– Zyi, meu garoto, venha aqui... – disse Ghan com olhar cheio de preocupação.
– Mestre, quer dizer, Ghan, – corrigiu-se Zyi forçadamente – o que eu posso fazer pelo senhor?
– O que está a te incomodar? – perguntou Ghan – Eu posso ver em seus olhos, você está muito triste, muito mais triste do que qualquer um aqui deveria estar... – Zyi foi pego de surpresa com aquela observação – Não deixe que a guerra o abale desta forma, pois muitas pessoas morrem todos os dias por causa dela e, se você não conseguir manter o foco, não poderá ajudar a acabar com esse tipo de massacre... – a seriedade empregada em cada palavra usada por Ghan era muito grande.
– Nada está me incomodando, eu estou perfeitamente bem! – gritou freneticamente – Apenas me deixe em paz! – disse Zyi com a voz alta e correu floresta adentro como forma de ficar sozinho, era como se ele não conseguisse encarar o seu destino. Justo ele, que acabara de consolar a Karin, era quem estava precisando de consolo.

Subaru estava ligeiramente irritado. Ele sabia que aquele grupo não podia fazer nada contra um exército inteiro de gorgonites, mas a idéia de fugir do mesmo era terrível. Além disso, ver Zyi e, principalmente, Ghan matando gorgonites com tanta facilidade o fez pensar que, mesmo que fosse difícil, talvez eles pudessem derrotar uma parcela significativa de gorgonites e, assim, evitar a queda do vilarejo.
Ele jamais fora uma pessoa corajosa, mas, mesmo assim, ele sempre tentara fazer o melhor possível... Era bem verdade que ele, que não conseguia fazer muita coisa além de estudar matemática, tinha muita dificuldade para entender tudo que girava em torno daquela situação. Entretanto, ele jamais desistiria do conhecimento que os números o proporcionavam, por que eles desistiam tão facilmente da experiência que aquela batalha podia trazer para eles?
Será que eles realmente não tinham chance alguma? Eles mataram três gorgonites com uma facilidade tamanha que era possível para ele, um leigo, imaginar que eles não teriam dificuldades com números muito maiores.
Por que não, ao menos, tentar lutar? Os moradores do vilarejo iam ajudá-los, eles tinham chances...
Imperdoável, assim definiu Subaru... Inacreditável, qual era o limite de quão covarde uma pessoa podia ser? Era muito fácil para ele resolver problemas de matemática, ele nunca ia temer um exercício... Era fácil para eles lutar, por que eles temiam aquilo? Ele não conseguia entender...
Ele sabia que Zyi não era o garoto legal que todos diziam que era. Ele era muito quieto para ser uma pessoa tão boa, ele era muito fechado para ser tão bom... Tudo estava muito claro agora! Aquele nobre era quieto porque ele tinha um passado sombrio! Ele odiava o amigo da sua irmã com todas as forças porque agora, por causa dele, ele estava numa floresta escura correndo de um bando de gorgonites que iriam matá-lo com certeza assim que o encontrassem.
No meio de toda a confusão que Subaru fazia com os pensamentos, ele encontrou uma certeza para si: a culpa de toda a desgraça que estava recaindo sobre o Vilarejo da Pena era de uma única pessoa: Zyi.
“Eu te odeio” sussurrou Subaru, “Eu vou te matar com minhas próprias mãos, apenas espere por isso, não vai se arrepender...” E a raiva transbordava.
Enquanto Subaru estava alimentando seus pensamentos de ódio profundo culpando Zyi pela desgraça do vilarejo e prometendo uma vingança futura, a leve brisa da floresta que trazia apenas um pequeno frio, transformou-se em uma forte ventania. Alguma coisa estava prestes a acontecer, mas o que seria? Ele estava incerto.
– O que está acontecendo? – gritou Subaru.
– Nós fomos encontrados; nós vamos ter que correr de novo! Vamos! – disse Ghan – Zyi, onde quer que você esteja, vamos!
E o desespero tomou conta do grupo e Subaru esqueceu sobre o que estava pensando ao ver a expressão de Ghan. Talvez, aquilo não fosse tão fácil como ele imaginava.

Zyi estava se escondendo dentro de uma árvore. Esta era muito grande, cerca de dez metros de diâmetro, e tinha uma parte oca e aberta um metro e meio acima do solo. Provavelmente, alguém tinha feito aquilo, já que era perfeitamente esculpido e as paredes eram levemente cobertas com borracha, para evitar choques durante chuvas.
Como as paredes de madeira da toca onde Zyi se escondera eram muito espessas, ele não conseguia ouvir uma palavra sequer de qualquer lugar que não estivesse muito perto dele. Era o lugar perfeito para alguém que não queria se encontrado ou achar alguém, pelo menos assim pensou aquele jovem.
No momento em que o vento começou a soprar, ele, que estava próximo da entrada da toca, encolheu-se bem no fundo desta para evitar o contato que poderia gerar ainda mais frio. Lá dentro estava muito escuro, o que fazia com que ele só conseguisse enxergar, e mesmo assim com certa dificuldade, o lado de fora. Ele dependia basicamente do tato e do olfato para perceber o que o estava a cercar.
A cabeça do Zyi estava doendo muito, como se fosse explodir a qualquer momento. O passado e o presente estavam se misturando e bagunçando os seus pensamentos. Ele não sabia o que era, mas algo o pressionava vindo do que ele já havia deixado para trás, e ele estava tentando resistir.
O som do vento soprando cada vez com mais velocidade e força não o incomodava, ele apenas queria descansar. Lutar contra aquele gorgonite, apesar de não ter promovido machucado algum, fez com que ele ficasse cansado, precisando recuperar as energias. Entretanto, nem mesmo ele sabia dizer até que ponto sua exaustão era física.
Na verdade, o corpo dele estava descansando, mas a mente não estava. O sofrimento que estava sendo imposto à sua mente acabava afetando também o corpo, que não conseguia descansar apropriadamente.
Aquela dor pontiaguda que afligia sua cabeça numa constante parava por breves segundos, proporcionando uma sensação de alívio intensa. Porém, ela retornava em seguida com ainda mais força e desfazia a brevíssima sensação prazerosa que ele mal chegava a aproveitar.
“Por que isso está acontecendo comigo?” ele perguntou silenciosamente para si próprio “O que foi que eu fiz?” questionava-se inconformado.
Aquilo não era justo, não era bom. Aquilo era a pior coisa que já havia acontecido a ele durante toda a sua vida? A resposta não estava clara, era como se uma neblina intensa cobrisse a mente do Zyi, ele simplesmente não fazia a menor idéia de qual era a resposta para o que ele estava a perguntar.
Tantas coisas entravam e saíam da cabeça dele, tantas idéias, memórias, coisas que ele desejava que nunca tivessem acontecido... Era um fluxo indesejável de pensamentos que Zyi tentava bloquear, tentava afastar, tentava impedir.
Os eventos desencadeados naquele dia eram de uma natureza complexa que trazia à tona sentimentos esquecidos havia muitos anos por aquele jovem. Lembra deles era muito pior do que apanhar de gorgonites na concepção daquele nobre. Ele só queria esquecer.
Nada estava claro. A vida dele estava com mais dúvidas que nunca. No entanto, Zyi lembrou-se do rosto da Karin ao dizer que ia com ele e pensou: “Eu tenho certeza de que meus amigos estarão sempre comigo!”. Ele sentiu-se mal por ter saído do acampamento da forma como saiu...
Zyi deixou o seu refúgio na floresta com a intenção de se reunir com o grupo e, finalmente, seguir viagem. Entretanto, tudo que ele não queria era se encontrar com quem ele se encontrou logo ao sair da sua toca.

Ghan conseguiu guiar todos naquele grupo floresta adentro por um caminho que ele já conhecia previamente. Assim, ele conseguiu habilmente despistar os gorgonites que os seguiam.
Depois de andarem sem parar por um minuto sequer, eles encontraram um rio e, subseqüentemente, uma ponte. Eles atravessaram-na e, ao chegar do outro lado, perceberam que o rio dividia dois tipos de solo.
A margem oeste do rio era uma densa floresta com características tropicais. Havia ali muitas árvores de grande porte com folhas exuberantes e, muitas delas, com frutos em abundância.
O lado oposto tinha algumas árvores de pequeno porte próximas à água. À medida que eles avançavam, notavam que a grama desaparecia e era substituída pelo chão avermelhado de um terreno montanhoso.
A razão para a mudança não era conhecida por eles, mas o fato é que um grande desfiladeiro ficava na margem leste daquele rio. Este ficava apenas a cerca de vinte metros da margem e tinha aproximadamente duzentos de altura.
Na base daquela estrutura gigantesca, a cem metros da ponte pela qual atravessaram a água, havia uma caverna. Esta tinha seis metros de altura e quatro de comprimento na entrada, tornando-se gradativamente mais larga em seu interior.
O caminho até ali havia sido bastante complicado. Subaru deixava evidente a sua vontade de não cooperar com Ghan, Erin e Aya, além da sua insatisfação com o fato de estar sendo exigido fisicamente quando não era dotado desse tipo de habilidade. Ainda assim, ele se esforçou para ajudar.
Eles começaram a correr do desarrumado acampamento logo após terem ouvido sons se aproximando dali. O lugar era muito escuro, o que dificultava significativamente o senso de direção e a segurança durante a corrida, mas Ghan conseguiu guiá-los sem grandes dificuldades.
Finalmente, eles avistaram o rio. Este era tão grande que de uma margem não se enxergava a outro. Além disso, a água ali presente era límpida, translúcida.
Demorou pouco até que encontrassem a ponte para atravessar aquele flúmen. Esta era larga e segura, feita inteiramente à base de pedras. Ela estava ali porque aquele lugar havia sido uma rota comercial em tempos longínquos, mas fora extinta devido à guerra.
Logo que atravessaram, Ghan os levou até a caverna para que eles pudessem se refugiar, mas a não presença do Zyi não permitia que descansasse. Ele conferiu a caverna, viu que estava vazia, fez uma ronda em seus arredores e, quando finalmente concluiu que Karin, Aya, Erin e Subaru estariam seguros, ele saiu dali em disparada com o objetivo de buscar o único que ainda estava faltando.

Em sua arrancada atrás do seu pupilo, Ghan refez o trajeto inverso até a caverna onde havia deixado Karin e os outros com uma velocidade muito maior, já que não precisava esperar quem quer que fosse. Ainda assim, a grande quantidade de árvores, raízes levantadas no solo, pedras, entre outras coisas atrapalhavam o progresso daquele homem.
A alta umidade do ar aliada à temperatura elevada fazia com que ele transpirasse intensamente. Ainda assim, ele ignorava o incômodo que se tornara andar ao redor daquela floresta, afinal, ele queria verdadeiramente o Zyi e não estava disposto a desistir facilmente daquilo.
Cercado por aquela vegetação espessa, Ghan chegou, em alguns momentos, a se sentir desorientado. Até mesmo o vento, que poderia servir para a localização, estava mudando de direção constantemente, fazendo com que aquele homem ficasse ainda mais perdido lá dentro.
A verdade era que ele não se tratava mais de um jovem adolescente, mas de um senhor de idade, e o cansaço já estava atormentando-o. Fazer uma busca em uma floresta escura onde nem todos os caminhos eram conhecidos não era uma tarefa simples, e isso se refletia diretamente no que Ghan estava vivendo naquela noite um tanto sombria.
– Zyi! – gritou Ghan já num momento de profundo desespero buscando uma fonte de esperança, mesmo que ele próprio duvidasse que fosse ouvir qualquer resposta para seu chamado – Zyi, meu garoto, onde está você? – ele se esforçou.
Ele ouviu um grito vindo de um lugar bem distante. O som não se assimilava a um simples chamado, mas passava uma sensação de dor, de sofrimento.
Mesmo ciente da possibilidade de aquilo ser uma armadilha, Ghan não pensou duas vezes. Ele correu com o máximo de velocidade possível atrás dos gritos como se eles fossem a última possibilidade de sobrevivência que se mostrasse para ele.
O som foi se tornando gradativamente mais alto, e Ghan apressou seu passo para chegar até o lugar de onde a voz continuava a gritar. Só podia ser ele, o garoto que treinou em seu dojo durante toda a vida: Zyi.
Ghan não podia perdê-lo ou todos os seus esforços teriam sido em vão e ele não conseguiria completar a sua tarefa. E ele sabia muito bem que não concluir sua missão não era algo que podia ser cogitado.

O som que emanava dos berros estava crescendo e, ao passo que isso acontecia, a imagem de Zyi na mente de Ghan estava se mostrando cada vez mais clara, era ele! Aquela voz era única e, para Ghan, inconfundível. Não era uma farsa, não era uma armadilha, era o Zyi!
Ghan não ligava para a temperatura exorbitante, para as suas roupas completamente molhadas por causa do suor, para nada. Tudo que ele queria era salvar o Zyi, o garoto em quem ele depositou todas as esperanças ao longo de tantos anos ensinando a arte do kendo ao mesmo, mostrando a ele como se segura uma espada, como se golpeia, como se defende, a filosofia. Ensinou coisas sobre a arte da vida. Ele não podia abandonar Zyi de forma alguma!
De repente, ele notou algo de diferente que o fez hesitar. Havia uma presença mágica ali, alguém realmente poderoso.
A pessoa que estava emanando aquele poder o fazia de propósito! Qualquer um que dominasse tamanho poder conseguiria esconder o próprio ki.

Ki era uma energia que existia dentro de todas as pessoas em Huppethay. Pessoas podiam desenvolver o próprio ki com a prática de magia e de alguns certos exercícios mentais.
Aqueles que tinham o ki bem desenvolvido conseguiam controlar magias maravilhosamente. Por outro lado, aqueles que não o desenvolviam apropriadamente, não conseguiam manipular magias que requeriam uma técnica mais refinada. Quando tentavam fazer isto, gastavam tamanha quantidade de energia que acabavam tendo que sofrer como conseqüência a morte.
A emanação do ki é natural. Entretanto, magos mais experientes conseguiam aprender a escondê-lo e a encontrar pessoas através da energia que emanam.
O ki estava para a alma como o sangue para o corpo e, por isso, uma pessoa que perdesse seu ki morreria instantaneamente. Ao realizar magias, o indivíduo responsável pelas mesmas gastava quantidades equivalentes às tarefas que queria realizar. Esse gasto podia ser minimizado com treino, possibilitando feitos incríveis, mas nada fisicamente impossível, como ressuscitar um morto.

Ghan tinha consciência do fato de que ele não podia pensar em fugir daquela energia. Ele tinha uma razão pela qual ele precisava lutar.
Zyi estava lá e, provavelmente, ele era o prisioneiro daquela pessoa tão poderosa. Ele era naquele momento como o queijo em uma ratoeira e Ghan era um rato faminto que dependia daquele alimento para manter suas chances de sobreviver.
– Quem é você? – gritou Ghan.
– Ora, será que a idade fez com que você esquecesse-se dos seus antigos amigos, meu caro Ghan? – disse o homem, levemente irritado.
– Gregorius? – assustou-se Ghan reconhecendo aquela voz imediatamente: o que o líder dos gorgonites, o humano Gregorius, estava fazendo ali?
– Ah, agora você se lembrou. – disse Gregorius, lacônico, com um tom irônico em sua voz. – Quase achei que traidores não tinham memória...
– Eu não vou deixar que você faça o que quer! – gritou Ghan, ainda atrás das árvores, mas já passando a se mover lentamente e, passo a passo, entrar no campo de visão do rei dos gorgonites e, consequentemente, fazer com que ele entrasse no seu.
– Eu não esperava por isso – disse o monarca secamente – Não sou tão inocente assim. – ele encarou Ghan friamente – Mas sou fiel aos que me seguem, severo com os que me traem, mesmo que seja você... – ele continuava evidenciando a irritação no seu falar.
– Parta agora, Greg! – disse Ghan – Você ainda pode evitar esse combate desnecessário... – ele insistiu – Está em suas mãos não deixar que ocorra um derramamento de sangue inútil aqui.
– Desculpe, velho amigo, eu não posso, eu simplesmente não posso. – disse ele sem mostrar animação – Eu me pergunto por que você abandonou o comando do meu melhor exército por um pequeno vilarejo como este, insignificante... – ele olhou para cima e, então, tornou a encarar o Ghan – Talvez você soubesse sobre esse garoto e nada me disse. – ele fez uma pausa – Traidor... – ele fez essa palavra soar como se estivesse com nojo de pronunciá-la – É isso que você é Ghan Torikaesu!
– Eu fugi porque eu não agüentava mais ter que observar a morte desnecessária de pessoas inocentes. – disse Ghan em resposta – Você é um monstro! – Ghan alterou o tom de voz, mostrando pela primeira vez a sua raiva – Tudo que você nos pedia era para matar, e por quê? – Ghan tomou fôlego – Foram muitas mortes sem sentido... – ele balançou a cabeça sutilmente.
– Você era o líder de um exército! – gritou Gregorius – Você se acostumou a ver mortes, isso jamais servirá como desculpa para a sua traição! – o rei dos gorgonites estava inconformado.
– O mal já contaminou a sua alma – Ghan lamentou – Sua morte irá acontecer proveniente das trevas que estão a consumir pouco a pouco o seu coração. – disse ele com uma serenidade improvável – Se você não mudar agora, poderá ser tarde demais... – ele estava tentando dar um aviso, mas não obteve sucesso.
– Eu não vou ficar ouvindo este tipo de besteira, venha aqui e encare a mim e a seu pupilo. – Ghan não gostou de ouvir aquilo.
Ghan hesitou, mas andou lentamente e entrou totalmente no campo de visão do seu antigo companheiro. Naquele momento, ele confirmou a situação desagradável: Zyi estava sob a posse de quem não devia de forma alguma estar.
Gregorius era um homem alto, cabelos pretos, longos e ondulados, olhos vermelhos como o sangue e pele pálida como a neve; o rosto de Gregorius era como o mais lindo anjo, mas seus olhos eram um convite para a morte. Ele tinha os músculos que a espada requisitava para ser manipulada com grande precisão, nada mais. Por este motivo, a agilidade se tornara a grande característica dele no campo de batalha e esta podia ser mortal para muitos.
Eles estavam num raro ponto da floresta onde as copas das árvores não se encontravam, de forma que o céu era visível. As árvores formavam como que uma grande arena circular a céu aberto e o solo, diferentemente do resto da floresta, não era lamacento, mas rígido.
Essas condições impostas pela natureza favoreciam um duelo de espadas, e pelo que Ghan podia perceber da postura do homem que o encarava, este iria acontecer. Entretanto, por mais que não quisesse lutar, ele não podia negar que estava preparado para fazer o que fosse para trazer o Zyi de volta.
Ghan olhou em volta e viu que, no meio do círculo, havia uma enorme bolha verde e gosmenta onde Zyi se encontrava. Este podia ver e ouvir tudo e estava respirando no líquido esverdeado que preenchia o recipiente onde se encontrava.
O corpo do Zyi não se movia, exceto os olhos, e ele não conseguia falar, ou melhor, o som não saia do invólucro onde estava selado. Havia apenas um encantamento conhecido por Ghan que podia fazer aquilo: Bubbno ef Doiph.
Esse encantamento tinha um efeito muito prático: ele prendia um alvo dentro de uma bolha e fazia desse alvo prisioneiro. Então a vida do indivíduo era atrelada a qualquer outro que pudesse manipular magia e fosse conhecido pela pessoa. Em outras palavras, se o mago conhecido morresse, o prisioneiro morreria, se o mago conhecido derrotasse o conjurador do feitiço, o prisioneiro seria libertado.
 Apenas uma pessoa, até onde se sabe, conseguiu escapar desse feitiço sem precisar de ajuda, apenas com a própria força: Nellno, o Reluzente. Este elfo era parte de várias lendas e, inclusive, alguns acreditavam que tinha sido o elfo mais forte de todos os tempos, superando muitos reis e nobres de alto prestígio.
Zyi estava extremamente apreensivo: será que Ghan tinha forças o suficiente para derrotar aquele homem? Já não eram alguns gorgonites que estavam em questão, mas o líder o próprio líder do império... Ghan não era mais um jovem, a idade já era marcada pelos muitos traços em seu rosto.
Ghan e Gregorius desembainharam suas espadas e continuaram a se encarar enquanto andavam em círculos lentamente. A batalha entre aqueles dois homens estava conhecendo o seu início.
Ghan tomou a iniciativa e tentou num movimento rápido um ataque contra o tórax do Gregorius. Este jogou seu corpo para trás e escapou por questão de centímetros.
“Quase lá”, pensou Ghan. “Mas quase não vai resolver os meus problemas”.
Após esquivar-se do ataque de Ghan, Gregorius tentou um ataque vertical descendente buscando a cabeça de Ghan, que desviou seu corpo para a direita escapando do ataque e contra-atacou girando o corpo em uma tentativa de acertar a espada nas costelas esquerdas de Gregorius que conseguiu usar a espada para defender o ataque de Ghan.
Por um instante, Ghan e Gregorius pararam e se encararam. A idade estava pesando para Ghan, ou assim pensou Zyi, o expectador atento, por este já demonstrar cansaço em seu rosto enquanto seu oponente mostrava que ainda era capaz de lutar por seguidas horas. A intimidação gerada pela energia que Gregorius ainda tinha para gastar assustava Ghan, mas ele não podia parar por aquilo de forma alguma.
Ghan reparou que a espada de Gregorius era atípica: era predominantemente preta com algumas linhas roxo escuro que surgiam na lâmina. Era cheia de pequenos detalhes que Ghan não conseguia enxergar direito e emanava uma grande quantidade de energia...
Ghan sentiu-se estúpido. Ele acabara de deduzir o método utilizado por Gregorius para achar seu pupilo e xingou-se algumas vezes por não ter pensado naquilo antes quando era algo tão evidente! O imperador gorgonite encontrou o Zyi por meio da espada.
Ele olhou para o garoto confinado na bolha verde observando aterrorizado para a batalha. Ele estava segurando a espada vermelha, laranja e amarelo que aparentava estar em chamas quando em movimento.
Zyi não sabia, mas a espada dele era um artefato poderoso. Ela mantinha uma aura própria de energia que o próprio Ghan poderia perceber a distâncias enormes caso procurasse por aquilo.
Ghan não se lembrou, em momento algum, por causa da correria da fuga, de esconder a emanação da espada. Esse erro, que podia ser considerado infantil quando cometido por alguém com a experiência daquele homem, poderia estar custando muito caro e ele sabia disso. O fato de que ele havia ficado muitos anos sem ser forçado a fazer uso das suas habilidades nunca havia se mostrado tão problemático como naquela situação!
O suor estava escorrendo do rosto do Ghan enquanto ele observava o seu adversário para realizar o seu ataque que poderia ser o último, para a vitória ou para a derrota. Era um momento crucial e Ghan sabia muito bem disso. Ele não tinha energia o suficiente para manter uma batalha longa contra Gregorius, que, apesar de ser muito velho, tinha a energia de um garoto.
Ghan olhou ferozmente para Gregorius e balançou sua espada na direção da garganta do líder gorgonite. Este demorou em mover-se, dando a todos a impressão de que não daria tempo para realizar a defesa e de que era o momento da vitória para Ghan, mas essa impressão estava errada.
Repentinamente, Gregorius gritou:
– Disc Rwesd! – A espada dele começou a emanar uma aura negra que misturava roxo escuro e preto e, então, ele defendeu o ataque de Ghan com uma velocidade assustadora no movimento da espada e uma facilidade absurda. Logo em seguida, ele atacou Ghan direto no estômago com uma estocada, perfurando-o. Sangue começou a sair da barriga de Ghan, que caiu no chão, com a respiração ofegante, sem energias para realizar quaisquer movimentos e sentindo o peso de uma derrota inquestionável.
No momento em que Ghan caiu no chão, a bolha verde onde Zyi se encontrava começou a tremer. O líquido interno dela estava movendo-se com uma velocidade intensa. Na seqüência, alguns pontos dela começaram a sofrer pequenos cortes, fazendo com que o líquido vazasse.
– O que está acontecendo? – espanto tomou conta do imperador gorgonite – Ele está vivo! – ele estava tentando entender o que estava acontecendo, mas falhava em compreender – A bolha não deveria estar se movendo! – gritou Gregorius desesperadamente.
Então, após a agitação inexplicável, houve uma significante explosão que espalhou o líquido esverdeado por todo aquele ambiente. De dentro, saiu um ser diferente do que estava selado ali apenas alguns momentos antes.
O corpo do Zyi tinha um enorme par de asas, que era predominantemente vermelho, com algumas penas laranja e outras amarelo nas partes mais baixas. O cabelo ruivo dele agora tinha algumas mechas laranjas e amarelas. Seus olhos agora assumiam a cor laranja.
Ele assemelhava-se a um anjo com aquelas asas grandes e imponentes e sua espada flamejante. Ou, talvez, ele realmente fosse um.
Com o bater das asas, Zyi estava voando baixo e lentamente, quase que parado no ar. A elegância do seu movimento chegava a ser hipnotizante.
Ele balançou a espada no ar uma vez e chamas avançaram contra Gregorius e acertaram em cheio. Este tentou defender usando sua espada, mas foi arremessado para trás.
Ele tentou devolver com uma seqüência de ataques, primeiro contra a cabeça, contra o baço, contra o estômago, contra o tórax e, por fim, contra a cabeça mais uma vez, mas Zyi defendeu com facilidade espantosa cada ataque do Gregorius como se este se movesse em câmera lenta. O jovem angelical, naquele momento, superava Gregorius em velocidade e força.
– É a sua vez de morrer! – disse Zyi com muito ódio em sua voz. Ele, ao ver Ghan naquele estado, queria acabar com Gregorius de qualquer forma, e a diferença de habilidade demonstrada estava pesando.
Zyi avançou na direção de Gregorius com uma velocidade assombrosa e tentou um ataque direto com a espada. Este usou sua espada novamente para defender e, mais uma vez, foi arremessado.
– Eu não estava preparado para isso, não será tão fácil da próxima vez! – gritou Gregorius, e então ele desapareceu no ar.
No momento em que Zyi pisou no chão, suas asas desapareceram e ele desequilibrou-se, mas, ele ignorou isso e a sensação de fraqueza e a dor do desgaste físico causada em seu corpo. Ele tinha uma preocupação muito maior com a qual lidar.
Mesmo desequilibrado, ele andou até Ghan. Logo que chegou ao lado dele, ele se ajoelhou e, então olhou para o rosto empalidecido do seu professor de kendo e viu que este estava respirando. Fazendo esforço para falar, Zyi perguntou:
– Mestre! Você está bem?
– Eu estou bem, minha hora chegou. – ele esboçou um sorriso – Vá para a Cordilheira dos Dragões, não desista! Você é um bom garoto, você tem sido um filho para mim ao longo de tantos anos. – Ghan estava emocionado, lágrimas escorreram em seu rosto – Eu não me esquecerei disso quando estiver no paraíso. – ele tossiu, o que fez com que Zyi tentasse parar a fala do seu mestre, mas esse balançou a cabeça negativamente como um pedido para que não fosse interrompido – Meu garoto, você precisa apressar o seu passo para chegar a Cordilheira dos Dragões antes que seja tarde demais. Não hesite, eu estarei sempre a te observar... – disse Ghan, com a voz relativamente firme para alguém que estava morrendo.
– Mestre, o que aconteceu comigo? – Zyi estava razoavelmente consciente do que acabara de acontecer com ele – Por que meu corpo mudou?
– Você terá que descobrir isso sozinho... – Ghan fechou os olhos e silenciou-se, então desferiu suas últimas palavras – Meu garoto, não fique aqui esperando que este corpo apodreça... Eu não tenho energias para sobreviver até a caverna onde estão seus amigos... – ele sorriu – Apenas vá à direção do rio que corta a floresta e procure a ponte... Você vai achar a caverna... Deixe-me aqui... Eu devo morrer em alguns minutos... Adeus, Zyi. – Ghan fechou os olhos e ficou estático, como se estivesse dormindo. A respiração estava cada vez mais fraca...
– Descanse em paz, Mestre... – Zyi começou a chorar, mas obedeceu ao último pedido daquele que tanto lhe ensinara e deixou o local.