Nicole
saiu de casa trajando um longo vestido vermelho com uma faixa preta em sua
cintura. Seus longos cabelos ruivos encaracolavam até abaixo de seus ombros.
Seus olhos castanhos estavam cerrados contra o sol do crepúsculo que a atingia
no rosto, iluminando as sardas que marcavam-lhe a face.
A
cidade de Fagersta estava movimentada pelos preparativos para o festival do
solstício de verão, que ocorreria na semana seguinte, mas a jovem pouco se
envolvia com tais festividades. Alternativamente, ela foi para uma taverna
local.
“A
Bafo de Dragão não é lugar para uma humana como você”, dizia Dona Ruth, mãe
daquela adolescente. “Lembre-se que estamos em uma cidade de anões beberrões e
violentos!” Nicole repetia mentalmente as palavras de sua matriarca enquanto
andava. Rindo. O que minha mãe acha que
vai acontecer? Um anão vai saltar do nada e cortar meu pescoço fora? Além
disso, anões não ficam bêbados...
Foram
apenas quinze minutos até que Nicole chegasse ao seu destino. O cheiro de
álcool que saía da taverna podia ser sentido mesmo antes de ingressar no local.
Se um dragão abrisse a boca por aqui, a
cidade inteira seria explodida! Junto com um pequeno grupo de anões, a moça
entrou na Bafo de Dragão e, em seguida, buscou uma mesa vazia. Como de costume,
ela era a única humana presente.
“Hoje,
esse lugar tá cheio pra burro”, comentou alguém. Nicole observou a taverna e
concordou. Quando escolhera a pequena mesa de madeira no canto, ela sequer
notara que aquela era a única ainda disponível no local. Além disso, a
adolescente era a única pessoa sentada sozinha ali.
“Boa
noite, Nicole!” saudou-a um garçom que já a conhecia, havia muito tempo. Elaver
era um anão bem-humorado que sabia o nome de todos os clientes da Bafo de
Dragão. A brincadeira mais comum era que a memória do garçom era tão boa que
ninguém poderia contar segredos em um raio de cem metros dele.
“Boa
noite, Elaver!” a adolescente respondeu com carinho. De todos os anões daquela
cidade, aquele era o que ela mais gostava. “Vou querer o de sempre”.
“Um
dia, eu vou entender por que você vem numa taverna pra pedir suco”, riu o
garçom. “É como escalar uma macieira e ignorar as maçãs”.
“Eu
sou uma dama, não devo me embebedar”.
“E
eu sou um gnomo com três patas”, e ele deu uma gargalhada alta.
“Tu
parece um porco rindo, traz logo meu suco!” disse Nicole, mantendo o momento
descontraído. O garçom fez uma saudação espalhafatosa para brincar com a jovem
e seguiu para o balcão.
Do
seu lugar, a adolescente observou a banda tradicional da Bafo de Dragão
montando seu palco. Aquele era o
motivo pelo qual ela desafiava sua mãe para beber suco de uva em uma taverna
cheia de anões beberrões. A banda Kelt, composta por Idina, uma anã com
vistosos cabelos ruivos dona de uma voz única e espetacular; Badriram, tocador
de flauta que se destacava por seus solos arrojados; Damaram, gaitista de fole
que mostrava habilidade fora do comum; Horak, o dono da concertina; e Hellen, a
única integrante não-anã da banda, sendo uma elfa com a pele verde claro e o
cabelo da mesma cor, mas em um tom mais escuro. Ela tocava o violino como
ninguém fazia naquele mundo. Finalmente, havia Gotrek, que fazia a percussão
com o seu bodhrán.
Nicole
ainda estava observando os músicos quando Elaver chegou com sua bebida. Ela
agradeceu com um sorriso e continuou olhando para o pequeno palco. A jovem se
perdia relembrando as apresentações anteriores. Recordava os seus solos preferidos,
as cantigas que mais gostava. Ouviu quando Hellen tocou um pouco de violino
para testar o sistema arcano de amplificação de som, o qual permitia, através
de uma magia que Nicole não compreendia, que os presentes ouvissem a música de
acordo com o quão interessados estivessem nela. A adolescente não ouvia
qualquer outra coisa uma vez que a Kelt começasse a tocar.
A música
começou com o roçar das cerdas do arco de madeira nas cordas do violino.
Suavemente, a melodia ganhava forma. Em seguida, a flauta entrou tocando notas
longas, proporcionando um agradável pano de fundo para o solista. Este voltou
para o início e, de uma vez, todos os instrumentos entraram na música. O bater
do bodhrán elevou a intensidade da música. Hellen, com seu violino, e Badriram,
com a flauta, revezavam-se na melodia central. Nicole conhecia aquela música e
a acompanhava animadamente. Ela estava aguardando a parte que mais gostava. E
esta veio. Após uma nota alta e longa da flauta, Idina encheu a taverna com sua
poderosa voz. Cada nota que produzia parecia mágica. Nicole não sabia descrever
com palavras a sensação que a vocalista despertava nela. A jovem só sabia que
valia a pena sair de casa à noite, ir a uma taverna repleta de anões beberrões,
tudo para ouvir aquela banda inteiramente desconhecida.
Como
em todas as noites, Nicole ouviu todas as músicas da Kelt, pagou sua conta e
foi para casa. Ela tinha aula no dia seguinte. Um dia, a adolescente pretendia
ser como Idina.