Capítulo Quatro
A Fuga
Após passar aquele tempo refletindo sobre como
conhecera sua melhor amiga, Zyi resolveu andar um pouco pelo vilarejo onde
havia crescido. A expectativa de deixar o lugar em alguns dias mexia com ele,
afinal, ali era onde havia se criado para o mundo.
Logo que saiu de casa, dirigiu-se à praça central. Lá, não havia a
presença de uma pessoa sequer além dele, provavelmente por causa do horário,
mas o tempo fechado que se formava no céu também era um convite para que as
pessoas não deixassem seus domicílios.
Os pássaros ainda estavam cantando a sua incessante canção e lá estava
extremamente pacífico. Canção que nem o frio constante, nem a brisa cortante
eram capazes de fazer cessar, para o agradecimento dos habitantes do Vilarejo
da Pena.
Zyi começou a observar o céu: estava repleto de nuvens escurecidas, que
chegavam a ser um tanto assustadoras. As nuvens acinzentadas estavam agrupadas,
tornando fácil a previsão de que a chuva estava para cair, porém, Zyi não
queria deixar aquela praça. Sentia em seu peito a necessidade de permanecer ali
e contemplar um pouco mais dos seus últimos dias naquele vilarejo onde havia amadurecido
como pessoa, na aldeia que tomou conta dele por tanto tempo, onde as pessoas
que amava viviam.
Para Zyi, deixar o vilarejo era algo doloroso, pois não havia saído de
lá em qualquer oportunidade desde que seus pais faleceram. Não era nenhum
absurdo pensar que naquele vilarejo estavam as pessoas que o consolaram nos
momentos mais difíceis de sua vida até então.
Entretanto, no fundo, ele estava encarando isso de maneira relativamente
positiva porque duas das pessoas mais importantes nesse período iam acompanhá-lo:
Karin e Ghan. Além disso, ele ia convidar Aya, que também havia exercido um
papel fundamental ao longo de todo o tempo em que se conheciam.
Depois de um tempo sentado sem qualquer companhia, passos começaram a
ser ouvidos aproximando-se. O som estava se tornando cada vez mais alto,
calmamente e vagarosamente. Zyi não olhou para nenhuma direção além de seus
pés, estava ouvindo a aproximação dos passos e, de repente, se virou para ver
quem era a pessoa que estava lá...
– Mestre? O que está fazendo aqui? – perguntou Zyi.
– Bem, eu estava a esperar por você em casa, mas como você não apareceu,
eu vim aqui te procurar... – disse Ghan com um sorriso sutil em seu rosto – Se
um dia após a confirmação da viagem você já está assim, imagina ao longo da
jornada...
– Desculpe-me, Mestre, eu me esqueci da aula de hoje... – disse Zyi
abaixando a cabeça e juntando as mãos na altura da cintura, fazendo uma
reverência.
– Está bem – riu Ghan – Venha comigo agora. – ele fez um sinal com as
mãos para que Zyi o seguisse.
Ele o seguiu até que ambos chegaram à casa do professor de espada. Esta
era grande e muito larga, o que ocorria porque uma metade era inteiramente
destinada ao treino intenso de kendo.
– Entre, por favor. – disse Ghan abrindo a porta cortesmente para que
seu aprendiz pudesse, então, adentrar sua morada.
O lugar era imenso: tinha um jardim preenchido com flores e grama, com
três bancos e um chafariz. Havia um pequeno caminho de pedras que se bifurcava
e levava tanto a casa como ao dojo, o maior aposento de toda aquela estrutura.
Ghan optou por, ao invés de entrar direto na sala destinada às artes
marciais, passar pela casa. Ao entrar nela, chegava-se a uma sala com um tapete
dourado e branco, uma porta à direita que dava para o dojo, e duas escadas no fim da sala, uma de cada lado, que davam
para mezanino, no qual havia uma porta dupla.
À direita, havia uma porta simples que Zyi já conhecia muito bem, já que
além dela ficava um dos lugares onde havia passado mais tempo ao longo de seus
dezesseis anos de idade. Ele apenas observou seu professor abrir aquela porta
para que os dois pudessem ir para o dojo.
Este era quase inteiramente branco e tinha espadas fixadas por toda a
parede, da mesma forma que facas, adagas, shurikens, e mais armas laminadas.
Além disso, o piso era firme, de forma a não atrapalhar os movimentos, mas
suave o suficiente para evitar machucar o lutador após este sofrer alguma
queda.
– Sente-se no chão – disse Ghan calmamente, assim que entraram no dojo.
– Está bem – Zyi sentou-se com as pernas cruzadas e apoiando nelas os
seus braços. Ghan fez o mesmo e ficou de frente para o seu pupilo.
– Você acredita em mágica, meu jovem? – perguntou aquele professor de
kendo com um sorriso em seu rosto.
– Eu não sei – disse Zyi rindo – Eu costumava acreditar quando era criança – Zyi deu bastante ênfase na
última palavra – mas, hoje em dia, eu acho que é besteira. – com sua voz, deu a
entender que estava falando algo completamente óbvio. Não que pretendesse
desdenhar de seu tutor, mas conversar sobre magia era algo visto por ele como
um tópico infantil que não deveria ser abordado em uma conversa entre adultos,
ainda mais com a situação vivida naquele momento por eles.
– Você devia acreditar! – disse Ghan repreendendo a postura do seu
aprendiz prontamente – Você definitivamente devia acreditar! – ele conseguiu
confundir seu pupilo: o tom de voz usado na bronca era firme e severo, o que
prejudicou o entendimento do Zyi, que não demorou a responder.
– Por quê? – Zyi ficou verdadeiramente curioso, até mesmo pela forma
como seu mestre proferiu aquelas palavras. Ainda assim, estava achando
esquisita a forma como a conversa estava sendo conduzida, já que Ghan havia
introduzido repentinamente aquele assunto e não tivera o cuidado de usar
palavras que amenizassem o quão pouco usual era aquilo. Não era difícil
concluir que se tratava de algo muito natural para o professor de kendo.
– Você já ouviu falar dos Eluvesos?
– questionou Ghan fazendo menção a um nome que aquele jovem já havia escutado.
“Aonde ele que chegar?” pensou Zyi.
– Eu achava que eram uma lenda... – respondeu com a voz quase sumindo. Estava
sendo absorvido pela curiosidade e, ao mesmo tempo, incredulidade.
– Eles são uma lenda verdadeira, meu rapaz... – ponderou Ghan enquanto
gesticulava – Os Eluvesos criaram
a magia como ela é – disse enquanto continuava movendo suas mãos numa tentativa
de ilustrar o que dizia – Eles descobriram como manipular algumas forças
sobrenaturais de Huppethay – suspirou – As palavras mágicas apenas funcionam
quando ditas na língua deles, o “Eluveso”,
que é usado por muitos magos pelo mundo afora – explicava aquilo com bastante
empolgação – Acredite, meu jovem, eu
sou um deles...
– Desculpe Mestre, isso é alguma piada? – Zyi estava lutando para
segurar o riso – Quero dizer, magia? –enfatizou
a última palavra como que achando graça da situação. Ele fez uma pequena pausa
e, então, disse – É meio difícil de acreditar... – parou e suspirou – Meio não,
muito! Esta conversa está avançando muito rápido e eu não estou entendendo onde
o senhor está querendo chegar... – disse o jovem espadachim mantendo-se
irredutível quanto a crer no que lhe estava sendo dito por seu professor.
– Kildno Falgos – Fogo começou a queimar no topo do dedo de Ghan,
bem na ponta, quase que não tocando o próprio dedo, dedo que estava funcionando
como se fosse uma pequena vela, mas com uma cera infinita que não se derrete...
– O que me diz agora? – o sorriso acabara de mudar de rosto. As ameaças de riso
do rapaz mais novo se converteram em olhos arregalados e fixados naquela
pequena chama.
Ele demorou a pensar em como responder àquela demonstração visual de
como estava errado. Após engolir em seco cada palavra de desdém que dissera
instantes antes, o pupilo do Ghan disse:
– Perdão por duvidar do senhor, Mestre. – Zyi gaguejou nas primeiras
palavras e manteve um tom de tremenda surpresa na voz. Logo em seguida, a
mudança de assunto foi brusca.
– Nós partiremos na noite de hoje... – disse Ghan para o espanto do
rapaz ao seu lado, que estava achando difícil pensar em ficar só uma semana a
mais no vilarejo, quanto mais partir já naquela noite – Eu sinto que tem algo
se aproximando do Vilarejo da Pena e você precisa chegar até a Cordilheira dos
Dragões... – ele demonstrava muita cautela em suas palavras – Reúna as pessoas
escolhidas, eu vou com vocês, esteja neste lugar hoje à noite – deu mais um
sorriso e fez uma breve pausa antes de prosseguir com a sua fala – Eu menti
quando disse que nada mais tinha para te ensinar... – balançou o dedo indicador
e a chama que ali ardia sumiu – Eu te ensinarei magia ao longo da estrada para
a Cordilheira dos Dragões, mas agora, você tem que ir... – ele sorriu para o
pupilo – Tome cuidado, meu jovem!
Zyi se levantou e deixou a casa do Ghan sem se esquecer de se despedir
apropriadamente. Ele tinha a sensação de ter recebido muita informação para uma
só noite e estava confuso. Entretanto, estava feliz por saber que não teria que
se afastar do seu mestre, de quem gostava tanto.
“O que foi que ele previu para já querer partir com seis dias de
antecedência?” pensou Zyi, “Bem, eu tenho que falar com a Karin e com a Aya”. E
com o objetivo de comunicar às pessoas que queria ter como companheiras aquelas
informações que ele acabara de receber, seguiu o caminho rumo à casa de sua
melhor amiga.
Karin estava deitada em sua cama. O seu quarto era muito bem arrumado
apesar de ser pequeno. Havia a cama, feita à base de madeira, e um pequeno
guarda-roupa; duas portas tinham lugar ali, uma dando ao banheiro dela e outra diretamente
para a sala. As paredes haviam sido brancas no passado, mas Zyi a ajudara com
uma nova pintura e, agora, ostentavam um tom suave de rosa claro.
Karin estava pensando sobre o passado e o futuro. “Tudo vai mudar em
breve”, pensou ela, “Eu estarei com o Zyi aconteça o que acontecer, onde quer
que a gente vá, até quando nós estivermos vivos!”
– Karin! – chamou uma voz proveniente do lado de fora do seu quarto.
– Pode entrar, Subaru... – respondeu Karin evitando gritar, mas, ainda
assim, em um tom de voz elevado.
– Estou entrando. – ele entrou no quarto sem fazer muito barulho e, em
seguida, fechou a porta e apoiou o seu corpo na mesma.
– O que você quer? – questionou Karin erguendo a sobrancelha direita sem
entender a repentina vontade de seu irmão de ir falar com ela, algo que não era
muito comum ao longo de sua rotina.
– Você está diferente esses dias... – ele lançou um olhar desconfiado na
direção da irmã – É culpa dele, não é? – o tom era de acusação.
– Por que você acha isso? – ela quis desconversar, mas não obteve
sucesso.
– É meio óbvio... – ele empregou bastante ironia em seu modo de falar.
– Tudo bem, você é meu irmão, eu acho que posso te contar... – ela tomou
um pouco de ar com calma, como que se preparando para soltar uma bomba que
tiraria o irmão do sério – Mas já vou avisando que não quero que você crie
caso! – Subaru consentiu com o olhar e esperou a irmã dizer – Eu estarei
deixando o vilarejo dentro de poucos dias – Subaru perdeu a pose por um
instante e, então, se desencostou da porta e procurou palavras para se
expressar, mas nada encontrou para retrucar.
– Como? – disse após ser forçado a parar para levar bastante ar ao fundo
dos pulmões.
– Eu não vou mudar de idéia – ela disse cada palavra dessa frase
individual e lentamente para em seguida completar – Eu vou sair daqui e não há
nada que você possa fazer a respeito.
– Você não vai fugir! – estava gritando, irritadíssimo com o que a irmã
estava falando. Ele não estava entendendo, e nem queria, o que poderia
motivá-la a abandonar o lar, exceto o indivíduo que ele mais odiava naquele
lugar?
– E o que você vai fazer? – a pergunta foi fria e seca como a lâmina de
uma faca percorrendo o coração de sua vítima. Subaru foi forçado a recuar.
– Ah... Está bem, mas se você vai partir, eu também vou... – ele não
tinha como impedi-la, mas ela também não podia fazer o inverso. Sem saber o que
estava fazendo, Subaru quis se impor naquela situação.
– Você está louco? – foi a vez de Karin se assustar com as palavras do
irmão – Você não vai vir comigo! – ela dizia isso não por não querer a
companhia do irmão, mas por ter a noção de que a jornada que se seguiria
poderia ser muito dura para ele.
– Ah, eu vou! – desdenhou com um sorriso desgostoso em seu rosto – Você
não irá sozinha com ele! – Subaru disse a última palavra com desprezo.
– Por que você acha que o Zyi é tão mau? – disse uma Karin indignada com
a postura do intransigente irmão caçula – Ele fez muito por esse vilarejo! –
ela suspirou – Todo mundo o ama, exceto você!
– Isso é porque eu sei que ninguém pode ser tão bom! – começou a falar
de forma irritada – Eu tenho certeza que aquele infeliz quer alguma coisa e eu
descobrirei exatamente o que é!
– Você é louco! – disparou a irmã – Ainda existe gente que não é
gananciosa! – ela fazia referência nessa frase ao fato de que Zyi era visto
pelos moradores do Vilarejo da Pena como o nobre mais altruísta que já havia
passado por ali.
– É, mas ele não se enquadra nesse perfil... – a expressão
daquele jovem ainda era de desgosto com relação ao objeto da discussão estavam
tendo.
– O Zyi se encaixa nesse perfil, sim! – rebateu Karin – Ele é muito
adorável – disse ela de forma a deixar o próprio irmão sem graça – Você não
devia falar dessa forma de alguém que você não conhece! – ela foi incisiva e
Subaru viu que não havia mais brechas naquela discussão, então parou por ali, o
que não significava que ele havia desistido. Muito longe disso.
– De qualquer forma, eu vou com vocês! – ele reclamou novamente, dessa
vez sem abrir brechas para quaisquer reclamações da irmã.
– Está bem... – disse Karin já
querendo se livrar da presença do irmão – Deixe-me em paz, agora...
– Certo. – por mais arrogante que pudesse ser, ficou triste ao ver a
irmã brava, mas já tinha a quem culpar. E os ressentimentos que guardava contra
aquele jovem nobre iam se acumulando constantemente, como uma bola de neve.
Karin levantou-se e conduziu Subaru para fora de seu quarto. Eles sequer
se olharam no processo, mas ambos estavam incomodados com as posturas intransigentes
um do outro.
Assim que o irmão saiu, Karin trocou de roupa. Ela tirou o seu pijama e
vestiu uma calça de lã marrom com uma camiseta vermelha, ela calçou sua
sandália e saiu de casa pensando em ir até a praça para pegar um pouco de ar
fresco, mas acabou tendo uma surpresa antes de chegar ao seu destino.
No momento em que Karin cruzou a porta, ela encontrou com o rapaz que
acabara de defender na conversa com seu irmão: Zyi. Ele estava vestindo o seu
quimono de espadachim, que era vermelho, laranja e amarelo, parecendo fogo queimando
quando colocadas juntas e em movimento.
Zyi carregava consigo um semblante muito preocupado. Em conseqüência disso,
Karin, que logo percebeu a expressão fechada dele, perguntou:
– Zyi, o que houve?
– Nós vamos partir hoje – disse de forma ligeiramente corrida – eu não
sei bem por que, mas o Mestre Ghan falou comigo seriamente hoje pela manhã e
deixou claro que era necessária a nossa partida na noite de hoje... – concluiu
Zyi esperando que Karin fosse se assustar, mas, para a surpresa dele, ela
reagiu com relativa tranqüilidade.
– Quem irá conosco? – ela perguntou – Quer dizer, meu irmão insistiu
muito dizendo que também quer ir... – ela se mostrou cautelosa sob este
aspecto, mas foi a vez do Zyi surpreendê-la.
– Não tem problema – disse calmamente – ele só precisa estar ciente de
que será uma jornada árdua... – ponderou enquanto olhava para ela.
– Eu não sei dizer se tem consciência plena disso, mas eu creio que
insistirá em vir conosco de qualquer forma... – disse Karin ainda com a feição
demonstrando preocupação.
– Deixe que venha, então. – disse Zyi sorrindo despreocupado – Eu
convidarei a Aya para nos acompanhar – afirmou – Além do fato de saber que a
presença dela nos ajudará bastante, eu sinto que algo de muito ruim acontecerá
com ela caso não a tragamos conosco... – suspirou.
– Tudo bem, eu te acompanharei até a casa dela... – Karin sorriu com
alegria – Mas espero que essa sua sensação esteja errada de qualquer modo...
– Vamos lá agora, nós ainda precisamos preparar a nossa bagagem –
comentou enquanto seu olhar se perdia no horizonte – eu não vou levar nada além
de minhas espadas e uma ou duas camisas e calças... – disse Zyi – Creio que não
devemos carregar peso excessivo, já que isto pode tornar a nossa viagem mais
complicada – afirmou já com uma expressão mais tranqüila em seu rosto, o que
combinava mais com ele – eu te aconselho a fazer o mesmo...
– Eu não carregarei nada, exceto meu arco, as roupas que visto, além de
um conjunto de reserva, e meu amor por meus amigos e todo esse vilarejo! – ela
sorriu e passou a mão no cabelo do Zyi de forma a bagunçá-lo, e então ela
sorriu com seus olhos azuis inspirando a tranqüilidade e a paz das quais Zyi
tanto precisava naquele momento tão conturbado.
– Bem, vamos indo – disse feliz pelo alívio que
encontrar com a Karin havia gerado nele – Nós ainda precisamos falar com a Aya.
– e o sorriso crescia singelo em seu rosto.
E eles deixaram a casa da Karin logo em seguida e se
dirigiram para a residência dos Prince. Aquele dia estava realmente muito mais
atarefado do que Zyi havia imaginado ao acordar. Ele nem imaginava o quanto.
Aya estava sentada em seu jardim com seus olhos perdidos no horizonte
celeste. O céu já não mais estava como naquela manhã, mas aberto, cheio de vida
e brilhante. “Alguma coisa está para acontecer... Eu posso ver que as pessoas
estão agindo de uma forma completamente distinta do tradicional, meu pai está a
insistir que eu deixe esse vilarejo no mais curto período de tempo possível com
a minha mãe, mas eu ainda não quero” pensou ela.
“Eu quero permanecer perto do Zyi e da Karin, eu os amo e não quero
passar o resto da minha vida distante desse vilarejo e dos meus melhores
amigos, os únicos amigos que eu, uma pessoa com tanta dificuldade para se
relacionar, já tive...” Aya começou a chorar silenciosamente.
Aya teve uma infância muito dura e estava vivendo pacificamente pela
primeira vez em sua vida, logo, ela não queria ter os mesmos problemas mais uma
vez e, por esse motivo, jamais sequer pensara em sair daquele vilarejo para
visitar outros, quanto mais definitivamente. O Vilarejo da Pena era o lugar
onde ela crescera e vivera incontáveis aventuras, desafios.
Ela conseguia lembrar-se de cada problema que tinha enfrentado para
poder estar ali sentada calma e pacificamente e sabia que havia passado por muita
coisa para poder admirar aquele azul celeste reluzente. Aya tinha a perfeita
noção de como era o outro lado da moeda, onde pessoas passavam fome e, muitas
vezes, arriscavam a própria vida para tentar conseguir um pedaço de pão.
A vida de luxo que ela levava agora não a agradava ao todo, porque ela
sabia que era de certa forma uma injustiça que tantas pessoas tivessem quase nada
e outras tanto. Entretanto, ela não tinha esquecido suas origens, e
freqüentemente ajudava aqueles que realmente precisavam de apoio. Ela também
jamais ia esquecer a pessoa que a ajudara para que ela pudesse levar uma vida
mais tranqüila dedicada aos estudos, tanto escolares como de arco-e-flecha:
Zyi.
Se o jovem nobre órfão não tivesse se empenhado tanto para que ela
conseguisse um lar, ela ainda seria uma moradora de rua. Ele era para ela um
modelo de muitas formas diferentes, sobretudo pela caridade.
De repente, ela ouviu passos se aproximando, o que a fez parar de pensar
sobre a vida e enxugar prontamente suas lágrimas, e alguém erguendo a voz sutilmente
para falar com ela:
– Aya, querida, você irá partir ainda hoje do vilarejo com a sua mãe...
– a surpresa tomou conta dela – Nós não sabemos exatamente o que é, mas Ghan
contou ao prefeito que há algo que está para acontecer e que ele vai partir com
Zyi e outras pessoas com quem o mesmo ia falar. – Aya ergueu uma sobrancelha – Eu
tive uma conversa de cunho particular com Ghan e você poderá deixar o vilarejo
ao lado dele. – ela não sabia se ficava feliz ou triste por ouvir aquilo, afinal,
seu pai ia permanecer no vilarejo – Não alimente preocupações desnecessárias,
eu ficarei bem e, quando tudo estiver na devida ordem, você estará autorizada a
retornar e, novamente, viver conosco. – disse o Senhor Prince, com um sorriso singelo
no rosto.
– Obrigado, papai! Eu te amo! – ela abraçou seu pai com força, como se
sentisse que nunca mais o veria de novo, e começou a chorar com força.
– Tudo ficará bem por aqui, você ficará bem? – perguntou ele, ela
confirmou com a cabeça – Ótimo! Então, arrume suas coisas, não carregue muito
peso, pois, para esta viagem, você tem necessariamente que permanecer leve –
ele falava com um espírito aventureiro que ela desconhecia – Você lutará por
comida, mas se quiser, pode levar um pouco com você – ele sorriu com sua piada,
mas, sem que Aya visse, lágrimas escorriam do seu rosto, que tinha uma feição
triste de um pai que sentia que estava vendo sua filha pela última vez... Ele
não sabia o quão certo ele estava.
Zyi e Karin chegaram à casa de Aya e encontraram com o senhor Prince.
Lá, Zyi perguntou a ele sobre Aya e ouviu dele que ela ia partir viagem com
Ghan. Então o senhor Prince disse:
– Entrem, vocês podem esperá-la no jardim, enquanto isso, eu pedirei a Erin
para que ela prepare um chá para vocês, posso? – disse o gentil chefe da
família Prince enquanto observava as expressões confusas dos dois convidados.
Ambos ficaram surpresos com o fato de terem sido saudados com a informação de
que a amiga deles já estava inclusa na jornada que seguiriam sem que eles precisassem
ao menos falar com ela sobre o assunto.
– Muito obrigado, senhor Prince. – disse Zyi, ligeiramente desajeitado.
Eles adentraram o jardim e sentaram-se no gramado. No Vilarejo da Pena,
sentar-se no gramado de uma casa é tido como um ato muito educado que mostra a
apreciação daquele vergel.
Duas horas depois, o pôr-do-sol estava começando. Um cenário digno da
mais bela pintura: o céu estava alaranjado devido ao momento, as nuvens
misturavam laranja com branco e, algumas, com cinza; pássaros voavam na direção
do Sol em bando e a brisa fazia com que algumas pétalas de cerejeira e folhas
esverdeadas complementassem a cena ao serem carregadas pelo ar com destino
indefinido. Era uma cena de rara beleza.
Repentinamente, Aya apareceu gritando:
– Zyi! Karin! Eu senti saudades de vocês! Vamos indo? – perguntou como
se estivesse encarando aquela situação com muita naturalidade. Tanto Zyi e Karin
sabiam que isso acontecia por causa da personalidade dela. Como ninguém, ela
conseguia agir com tranqüilidade quanto, na verdade, estava se remoendo com
diversas preocupações internas. Eles não sabiam dizer se isso era um defeito ou
uma qualidade.
– Claro, vamos, minha mala, se é que posso chamá-la assim, está em casa –
ele pensou sobre o trajeto – Temos que pegar a bagagem da Karin e do Subaru
também, só então nós iremos para a casa do Mestre Ghan – ele olhou para o
pôr-do-sol – Estamos bem atrasados...
Eles se dirigiram à casa do Zyi primeiramente, já que esta era a mais
longe e a residência da Karin fazia parte do caminho da morada dele até a do
Ghan. Ali, Zyi pegou uma pequena mochila e duas espadas.
Ele confirmou que dentro da mochila havia duas calças, duas camisas e um
par de sandálias de madeira. O jovem estava vestindo o seu quimono e calçando
outro par de sandálias, adequadas para um espadachim. As espadas eram uma
kataná que ganhara de sua mãe e a espada vermelha que achara na tumba de seu
pai.
Em seguida, Zyi, Karin e Aya partiram para a casa da Karin. Lá, eles
iriam pegar a mala desta e Subaru, que, pelo que imaginavam, ia ter que fazer a
mala naquele momento.
Ao chegar lá, Karin gritou antes mesmo de entrar em sua residência, numa
tentativa de apressar se irmão:
– Subaru! Você está aí? – ela berrou tão alto que ele ouviria de
qualquer parte daquela construção. Zyi só se surpreendeu com o fato de que
nenhum vizinho se assustou o barulho.
– Estou aqui! – respondeu Subaru.
– Arrume suas coisas rapidamente, nós já estamos partindo! – disse Karin
já dentro da sua residência para pegar sua bagagem.
– Já está tudo arrumado – respondeu o irmão mais novo dela – Sua mala
está na sala! – afirmou.
– Ah, obrigado, seja rápido!
Eles pegaram a mala de Karin, que também era uma pequena mochila, e
esperaram calmamente por Subaru. Enquanto isso, eles conversaram.
– Por que estamos partindo com tanta antecedência? – ela estava curiosa –
O que foi que o Ghan previu? – perguntou Karin mantendo o tom.
– Não tenho idéia – disse Zyi, que também estava curioso com aquela
situação – Creio que ele é o único habilitado para responder tal pergunta – ele
ponderou – Podemos questioná-lo sobre isso quando chegarmos a casa dele –
respondeu Zyi.
– Zyi, seu quimono é muito legal, eu nunca o tinha visto antes... –
disse Aya, sorrindo. – Ele lembra fogo, não importa como eu o olhe – e ambos
riram.
– Obrigado – Zyi sorriu – Eu não tive muito tempo para botar uma roupa
um pouco mais adequada – ele comentou – eu farei isso quando chegarmos à casa
do Mestre Ghan – ele afirmou.
– Entendo... Eu estou feliz por estar com vocês – ela sorriu
singelamente – Vou tentar não incomodar – e Karin passou a mão na cabeça dela,
bagunçando o cabelo preto e liso dela.
– Estamos felizes por contar com a sua presença em meio a nós durante
toda essa viagem – disse Karin sorrindo enquanto brincava com o cabelo da
amiga.
– Muitíssimo obrigado, eu não sei o que eu teria feito não fosse vocês e
esse magnífico convite... – disse Aya com um largo sorriso. Zyi não sabia o
porquê, mas tinha certeza que aquela menina estava com uma grande vontade de
chorar.
Subaru saiu de casa com uma expressão muito fria: era como se ele
estivesse sendo forçado a viajar e ele fizesse questão de mostrar isso. Ele
lançou um olhar penetrante na direção do Zyi e disse agressivamente:
– Estou pronto. – Zyi desviou o olhar e se virou, preparando-se para ir
embora.
– Então, vamos. – respondeu Karin, sorrindo e ignorando totalmente a
grosseria do seu irmão.
Karin estava muito feliz. É verdade que deixar o Vilarejo da Pena não
era um grande desejo dela, mas a liberdade que aquela viagem iria proporcionar
era como um grande e maravilhoso sonho. Estar livre junto com seus amigos, Zyi
e Aya, seu irmão, que mesmo sendo mandão e resmungão, era muito amado por ela,
e até mesmo o Ghan, seria uma experiência cuja perspectiva de realização a
agradava muito.
Ela mal conseguia esconder o sorriso, o que tornava mais que óbvio que
ela transbordava de alegria naquele momento. No entanto, ela estava preocupada
também: ela não sabia como Zyi ia lidar com os perigos de viver como algo tão
perigoso quanto um Guerreiro Livre.
Os Guerreiros Livres eram homens que não lutavam na guerra para defender
uma bandeira, nem viviam em um único lugar, ou seja, andarilhos. Eles lutavam
pela sobrevivência e, normalmente, não eram muito habilidosos com espadas,
arcos e outras armas, mas os melhores eram ocasionalmente pagos para lutar,
matar, entre outros trabalhos semelhantes. Por outro lado, as pessoas não
gostavam deles, porque se acreditava que não eram verdadeiramente dignos de
confiança, pois podiam mudar sua lealdade dependendo da quantia oferecida. Eles
eram vistos pela população como guerreiros desleais e impuros.
Obviamente, muitos Guerreiros Livres eram pessoas boas e confiáveis
sobre as quais, o estereótipo de homem cruel não era justo, mas havia os
Sanguinolentos, os Guerreiros Livres que aceitam dinheiro para matar. Era
claramente impossível fazer a distinção entre um Guerreiro Livre bom e um mal,
afinal, um Sanguinolento sabia muito bem que precisava fazer uso de muita
hipocrisia e ser muito traiçoeiro, pois se mostrasse quem ele realmente era,
não conseguiria cumprir para com seus objetivos.
Eles caminharam durante trinta minutos, conversando bastante ao longo do
caminho, até chegarem à residência do Ghan. O tempo pareceu passar muito
depressa, de forma que eles se surpreenderam ao chegarem à casa do Ghan. “Já
chegamos?” pensou Karin.
– Mestre? – chamou Zyi ao bater calmamente na porta e olhar ao redor,
vendo que seu mestre de kendo não estava do lado de fora.
– Entre, Zyi! – chamou Ghan. O jovem nobre percebeu que a voz de seu
mestre vinha diretamente da direção do dojo.
Havia uma porta do dojo
que dava diretamente para o jardim. Zyi a indicou para seus amigos, chamou-os
com um sinal com as mãos e dirigiu-se para ela. Ele a abriu e entrou no lugar onde treinara kendo nos
últimos anos e sentou-se no chão, seguido de seus amigos que repetiram o seu
gesto.
– Nós somos um grupo grande... – iniciou Ghan privando-se de saudar os
recém-chegados – Vai ser mais difícil do que imaginei. – Ghan tocou seu queixo
com a mão direita – Eu tinha certeza de que você ia trazer apenas as duas
meninas e eu não esperava que a Erin viesse conosco. – ele suspirou – Falando
nela, ela está na cozinha preparando nossa última refeição antes de partirmos,
afinal, é mais que óbvio que não teremos a menor condição de sobrevivência caso
deixemos o vilarejo com fome, como lutaremos por comida sem energia? – ele
sorriu, mas foi o único ali a fazê-lo – Iríamos morrer muito rápido – concluiu
Ghan com um tom de voz conclusivo.
– Mestre, por que nós estamos partindo hoje? – Zyi foi direto ao ponto
de suas dúvidas.
– Meu jovem, os gorgonites estão vindo e você ainda não está preparado
para lutar, não ainda. – ele ponderou com uma expressão séria em seu rosto – Eu
disse ao prefeito cada detalhe que consegui prever, todos que estão partindo
hoje não estão devidamente preparados para uma batalha desse porte... – afirmou
Ghan categoricamente – Você, eu, seus amigos e Erin, somos quase inúteis
perante a força de um exército de gorgonites – ele parou um pouco antes de
finalizar – É por isso que eu tomei essa decisão.
– E nós abandonaremos todos, simples assim, sem nem ao menos fazer um
esforço para tentar ajudar? – questionou Zyi com um tom de indignação na voz.
– Sim, nós vamos. – Ghan foi mais direto do que como Zyi queria que fosse
– Você ainda não tem a menor condição de compreender, mas se em um dia como
hoje, sua alma partir para a companhia divina, é o mundo aqui em baixo que
deverá chorar. – ele parecia muito seguro, mas seu pupilo não partilhava do
mesmo sentimento – Todos os detalhes serão devidamente explicados quando
alçarmos o nosso objetivo principal dessa viagem: chegar com segurança física e
psicológica até a Cordilheira dos Dragões.
– Com licença! – disse Subaru – Cordilheira dos Dragões? Por acaso, você
está brincando? – ele usava para falar com Ghan o mesmo tom desrespeitoso com o
qual tratava o próprio Zyi – Nós não podemos ir para lá! É como convidar a
morte para tomar um café na hora do lanche! – concluiu rudemente Subaru.
– Zyi, é esse tipo de coração de galinha que você está trazendo para a
nossa tão árdua jornada? – Ghan ergueu uma sobrancelha olhando diretamente para
o garoto. Zyi não disse uma só palavra; ele sabia que Subaru não era uma pessoa
muito corajosa, muito menos, educada... Subaru, após ouvir tal definição,
calou-se completamente e, então, Ghan começou a dar as instruções necessárias:
– Nós partiremos às oito horas em ponto – ele suspirou – Faltam dez
minutos para as sete horas, descansem agora porque vocês podem ter toda a
certeza de que irão precisar de cada gota de sua energia para saírem desse
vilarejo... – eles nem imaginavam o quão certas essas palavras estavam.
O tempo passou rapidamente. Eles comeram a refeição divinamente
preparada por Erin e descansaram, uns dormindo, outros sentando, outros olhando
o céu estrelado, até que o momento certo da partida chegasse.
O tempo de espera foi repleto de preocupação, eles só conseguiam pensar
na enorme quantidade de vidas que iam ser perdidas naquela noite e que eles
estavam simplesmente deixando que os habitantes do Vilarejo da Pena fossem
cruelmente assassinados, sem qualquer ajuda que fosse. Quanto mais tentavam se
livrar dessa idéia, mais ela os assombrava.
Zyi convenceu a si mesmo que ele ia voltar futuramente e ajudar os
moradores a consertar tudo aquilo que seria danificado naquela noite. Isso fez
a cabeça dele parcialmente, fazendo com que conseguisse se acalmar um pouco e
se preparasse para partir com um pouco menos insegurança.
Karin estava muito calma e serena. Ela tinha a consciência de que ela não
podia fazer nada naquele momento, o máximo que ela conseguiria era dar algumas
flechadas em alguns gorgonites, que, por terem uma pele estranhamente grossa,
dificilmente seriam seriamente feridos.
Partir ia ser melhor porque, fazendo isso, ela teria plenas condições de
se fortalecer e, depois de muito treinamento e esforço, correr atrás de sua
vingança contra aqueles que destruiriam uma parte significativa de sua vida.
Ela tinha consciência de que esse pensamento não era nem um pouco nobre, mas
era, infelizmente, o mais racional.
Aya pensava de maneira semelhante à Karin. Ela não gostava da idéia de
partir, mas sabia que não teria qualquer utilidade concreta e que partindo
teria a chance de dar o troco aos gorgonites futuramente.
O único que não se satisfazia de forma alguma era o Subaru. Ele, ao
observar aquela fuga, culpava Ghan e Zyi de estarem assassinando o vilarejo e o
olhar que ele lançava na direção de ambos revelava o descontentamento do rapaz
mais novo envolvido naquela viagem.
Subaru jamais havia deixado o Vilarejo da Pena. Isso era algo que ele
sempre desejara profundamente, mas não escapando daquela forma, deixando todos
para a morte sem, nem ao menos tentar uma solução. Ele via aquela atitude como
algo que mancharia eternamente a honra dele e de sua família.
– Vamos indo. – as palavras do Ghan atingiram como flechas invisíveis
todos os presentes – Eu já chequei as suas malas e elas estão leves de forma
que não atrapalharão vocês ao longo da viagem – pontuou – Enquanto vocês as
carregam em suas costas, talvez, vocês precisem lutar, por isso é fundamental
que elas não impeçam certos movimentos. – ele explicou enquanto se movia – Um
de vocês trouxe muita roupa, então eu botei o excesso no guarda-roupa. Essas
mochilas que agora eu entrego para vocês não são as mesmas que trouxeram para
cá – ele mostrou ergueu uma delas com a mão direita. Eram pequenas, feitas com
um material que eles jamais haviam visto e assumia um tom predominantemente
marrom – elas foram feitas em Brolinios,
um vilarejo sem raças específicas que não aparece em mapa algum e é famoso por
desenvolver equipamentos que ajudam Guerreiros Livres. – comentou Ghan sem dar
detalhes sobre como sabia da existência de um vilarejo que não aparecia em
mapas – Eles desenvolvem tecnologias com o auxílio da inteligência dos sistons.
– os presentes se entreolharam, mas Ghan ignorou o fato – Essas mochilas colam
em suas costas de forma que ao fazerem movimentos bruscos, a mochila não se
move, prejudicando seu equilíbrio, mas move-se juntamente com o corpo como se
fosse parte dele. – ele demonstrou com a que carregava em suas costas.
– Mestre, eu nunca ouvi falar sobre os sistons ajudarem alguém... –
disse Zyi com um ar de curiosidade e, até mesmo, estranhamento.
– Bem, os sistons são uma raça bem misteriosa. – Ghan coçou a cabeça com
a mão direita – Eles constroem cidades subterrâneas, para que não sejam
facilmente encontrados. – ele riu – São mais um exemplo de povo que mapas não
registram e, ainda, há pessoas que negam a existência deles. O fato é que não
há registros de um siston que utilize magia, mas a inteligência super
desenvolvida deles fez com que eles desenvolvessem tecnologias inimagináveis ao
olho humano. – Ghan mantinha seu hábito de gesticular bastante para ilustrar o
que falava – Fisicamente, os sistons são seres bem curiosos... – ele sorriu –
Eles não respiram pela pele e não têm pernas, mas levitam naturalmente, sem o
uso de quaisquer magias... É muito difícil descrever um siston, porque não há
nada como eles na superfície. – ele suspirou.
– Bem, eu acho que é melhor nós irmos agora. – disse Erin cortando o
discurso do Ghan sobre a misteriosa raça dos subsolos de Huppethay.
Erin era alta, tinha cabelos pretos longos e ondulados, olhos grandes e levemente
puxados, boca bem pequena e lábios finos. Era uma pessoa muito magra cujo peso
era algo baixo de forma exorbitante.
Eles deixaram a casa de Ghan e se depararam com a escuridão da noite que
caíra. Naquele dia, a iluminação do Vilarejo da Pena não havia sido ativada
intencionalmente, como uma tentativa de prejudicar os gorgonites que estavam
para chegar e não eram acostumados com o lugar.
Eles atravessaram aquela rua escura seguindo os passos de Ghan. A Rua da
Cruz do Rei, onde aquela casa se localizava, era muito escura por natureza e
com as lâmpadas apagadas a situação se agravava.
– Para onde nós vamos agora, Mestre? – perguntou Zyi – Norte, Sul, Leste
ou Oeste? – indicando para as quatro ruas que eles podiam pegar no cruzamento
onde se encontravam.
– Leste, Zyi – disse Ghan – e não me chame de Mestre mais... – ele
ergueu o indicador direito – A partir da atual data, eu não sou nada, mas um
amigo. – Zyi não tinha intenção alguma de obedecer àquele pedido, afinal, ele
sempre enxergaria em Ghan o seu professor de kendo e de vida.
O vento estava soprando gelado enquanto eles caminhavam pela rua, estava
ficando gradativamente mais escuro. O céu estava decorado com estrelas esplendorosamente
belas, mas a luz do luar não estava acompanhando-as, o que prejudicava a visão
noturna.
Entretanto, a falta de luminosidade estava ajudando-os. Como eles tinham
a intenção de fugir dali, quanto mais difícil fosse localizá-los, melhor. Eles
não sabiam até quando poderiam contar com aquele recurso, mas queriam
aproveitá-lo.
Ajudando ou não, a vista era assustadora. As árvores que eram visíveis
ao longo do caminho dentro da cidade, das casas e fora delas, aparentavam ser
parte de um pântano sombrio e sem saída onde pessoas se perdiam e não mais
saída encontravam. Dava calafrios observar aquele lugar tenebroso: o Vilarejo
da Pena estava cheirando à morte.
Os passos deles próprios eram o único som que eles conseguiam escutar...
Eles estavam em estado de tensão, imaginando que, a qualquer momento, um gorgonite
surgiria das sombras e usaria seus punhos criados para matar e os nocautearia.
Ninguém ousava mexer os lábios com o intuito de proferir quaisquer palavras,
pois todos estavam extremamente atentos para cada pequeno som que pudesse de
alguma forma estar em curso ali.
O tempo passava devagar para eles enquanto andavam pela cidade quando, de
repente, eles ouviram gritos distantes. Estes não eram dos habitantes do
Vilarejo da Pena, mas de gorgonites, vozes muito brutas e graves que vinham
perceptivelmente da região oeste daquela vila.
Eles podiam ouvir o som dos gritos dos humanos seguidos pelos barulhos
de explosões. Então, fogo apareceu e começou a queimar a cidade: os gorgonites
já estavam dentro do Vilarejo da Pena. A batalha estava tendo início e a esperança
humana de expulsar a raça azul dali era praticamente nula.
Os gorgonites eram nascidos para lutar corpo-a-corpo: as mãos grandes
possuíam três dedos que pouco se moviam e não podiam segurar objetos com
precisão, mas que também ostentavam uma resistência extraordinária. A pouca
sensibilidade da pele fazia com que eles quase não sentissem dor, o que, no
calor de uma batalha, era de grande ajuda. A mesma era muito grossa, o que
fazia com que eles se livrassem, entre outras coisas, de danos físicos leves.
O sistema imunológico daquela raça era muito eficiente. A quantidade de
doenças catalogadas entre eles só não era menor do que as que afetavam os
sistons, e a diferença não era grande.
O intenso vigor físico e a habilidade nata para o combate presente em
quase todos os daquela raça não se refletia no intelecto: eles tinham uma
dificuldade muito grande de desenvolver quaisquer raciocínios complexos. Por
esse motivo, jamais os gorgonites causaram tantos problemas como naquele
momento histórico de Huppethay.
Eles eram uma raça que seguia quase que exclusivamente os instintos,
limitando-se a construir vilarejos mal-acabados e destruir raças que invadissem
o território deles. Até o momento em que o atual imperador se auto-proclamara o
primeiro a assumir o posto na história gorgonite, a maior sociedade já reunida
por indivíduos da raça azul contabilizava doze integrantes. Nada maior foi
encontrado em registros históricos espalhados ao redor do mundo.
O que tornava tudo ainda menos usual era o fato de o imperador que
estava no poder se tratar de um humano: Gregorius. Ele conseguiu trazer mais
indivíduos de sua raça, que acabaram por renegados pelos seus semelhantes que
se refugiaram no Lado Leste de Huppethay, e os responsabilizou pela parte
estratégica.
Estes fizeram bom uso da força dos gorgonites. Estes, por tratar-se de
ordens do Imperador, não questionaram os humanos em momento algum.
Após esse processo, eles estavam, pela terceira vez, mostrando ao
Vilarejo da Pena o resultado de toda essa mudança que fez deles uma raça tão
temida por toda Huppethay. O resultado era aquela guerra que já perdurava a
mais de trinta mil anos, tempo suficiente para três gerações de elfos viverem
sem ver paz, e não parecia estar próxima de encontrar o seu fim.
Zyi e os outros começaram a andar mais rápido, pois eles tinham que
deixar o vilarejo rapidamente. O som do ataque gorgonite estava ficando mais e
mais alto e a preocupação daquele pequeno grupo estava ficando cada vez maior.
Não havia a menor possibilidade de um retorno àquela altura.
O portão oeste já estava visível, mas a velocidade com a qual o som dos
gorgonites se aproximava era maior do que a deles para alcançá-lo. À medida que
os urros da raça azul chegavam até eles, o medo tomava conta de suas mentes ao
imaginar que eles ainda corriam risco real de vida.
– Rapazes, por aqui, nós vamos nos esconder até que o ataque esteja
completamente terminado – disse Ghan com a feição visivelmente preocupada – É
impossível que nós consigamos escapar antes que eles alcancem o portão... – ele
resmungou alguma coisa que ninguém além dele próprio conseguiu ouvir – Talvez
vocês não tenham devido conhecimento sobre isso, mas os gorgonites são
altamente destrutivos... – Ghan os guiou para um beco sem saída, sussurrou uma
seqüência de palavras e escadas apareceram, ele desceu as escadas, conduzindo o
resto do grupo e então disse:
– Knero Rpiasr – As escapas desapareceram juntamente com a vista
de todos os membros do grupo.
O breu no qual eles foram envolvidos os deixou, se é que isso era
possível, ainda mais tensos. Eles começaram a imaginar o que estava se passando
fora dali, o que ia deixando-os ainda mais ansiosos.
Moradores mal-armados contra o exército gorgonite. A escuridão envolvia
quem tentava pensar em nada, mas essa opção não parecia estar disponível para
aqueles seis, até mesmo por causa das circunstâncias em que os habitantes do
Vilarejo da Pena estavam tendo que lidar com tudo aquilo.
Eles ainda podiam ouvir os sons que vinham de fora do buraco onde eles
estavam. Eles perceberam a aproximação de gorgonites, que se espalharam por
ali, e alguns minutos depois, voltaram a se aglomerar no centro da cidade. Dois
gorgonites ficaram para trás e trocaram algumas palavras, que foram ouvidas
pelo grupo do Zyi. Estes não entendiam, porém, Ghan fez a tradução simultânea
para que eles compreendessem:
– Está todo mundo morto? – perguntou o primeiro gorgonite.
– Não, alguns escaparam, mas matamos quase todos – respondeu o segundo.
– Ele está morto, Grunur? – ele enfatizou nitidamente a primeira
palavra da frase.
– Talvez, não fale nomes no território inimigo, nós podemos ser
ouvidos... – reclamou Grunur.
– É só matar quem nos ouvir... – a violência deles fazia Zyi sentir seu
estômago embrulhar.
– Tanto faz, o mestre está nos chamando de volta, nós vamos atacar o
portão do norte e então partiremos. – afirmou Grunur.
– Tudo bem, vamos.
Eles esperaram pacientemente até o momento em que os passos dos gorgonites
se tornaram completamente inaudíveis e, então, deixaram o seu esconderijo. Dois
gritos mostraram o tamanho do erro que Zyi, Ghan e os outros cometeram ao
abandonar a segurança do esconderijo armado por Ghan para tentar fugir. Havia
três gorgonites, e não dois, e estes, ao verem Zyi e Ghan, que saíram primeiro
para conferir se era seguro, atacaram ferozmente.
Eles eram altos, algo em torno de dois metros e meio, e tinham faces que
lembravam muito um orc: presas grandes que saiam da boca, a face era gorda, o
corpo era completamente azul e tinha músculos bem definidos e fortalecidos. As
mãos, que só tinham três dedos, eram estruturas toscas, não serviam para portar
armas como espadas, mas intimidavam o oponente pelo dano potencial que poderia
ser causado por aquelas estruturas: um humano normal não sobreviveria a uma
pancada em cheio na cabeça. Eles estavam vestindo armaduras de metal e elmos de
madeira. Havia dois chifres na cabeça de cada um, eram grandes e fortes,
amarelos, semelhantes ao formato de um trovão.
Um gorgonite avançou antes dos outros na direção de Ghan, com um ímpeto
de quem estava ansioso por ver sangue. Ele correu rapidamente, brandindo seus
enormes braços azuis e saltou para tentar atacar Ghan de cima para baixo, mas
Ghan, num movimento extraordinário, sacou sua espada e moveu-se saltando e
atacando de baixo para cima com a espada posicionada horizontalmente, decapitou
o gorgonite no mesmo momento, sem dá-lo a menor chance de sobrevivência.
Os outros dois, que mostraram estarem um pouco assustados com a morte do
companheiro, avançaram também, um na direção do Ghan, outro na direção do Zyi.
Entretanto, eles tiveram um pouco mais de cautela em seus movimentos, como se
estivessem estudando seus oponentes.
Zyi tirou a espada que achara no túmulo de seu pai da bainha e tentou um
ataque direto na cabeça do gorgonite, mas este usou o braço na horizontal para
defender e atacou girando o outro na direção do tórax do Zyi, que defendeu
usando sua espada na vertical para baixo. Rapidamente, Zyi contra-atacou com um
ataque visando à cabeça na vertical descendente, mas o Gorgonite esquivou-se
com facilidade. O gorgonite começou a girar com os braços abertos tentando encaixar
uma seqüência de socos enquanto girava. Zyi esquivou-se do primeiro, do segundo
com dificuldade e, no terceiro soco, foi acertado no rosto sendo lançado contra
a parede de uma casa que estava atrás dele: a madeira da parede foi quebrada.
Ao mesmo tempo, Ghan estava apenas se esquivando com facilidade dos
ataques em seqüência do outro gorgonite, sem desferir ataque algum, como que
esperando o momento certo para definir a batalha.
Zyi levantou-se, o que surpreendeu nitidamente o gorgonite, e posicionou-se
esperando que o gorgonite tomasse a iniciativa e partisse para um novo ataque.
A face de Zyi, que acabara de ser brutamente acertada por um gorgonite, estava
apenas levemente ferida, portando apenas um pequeno machucado.
O gorgonite, levemente assustado, provavelmente devido ao fato de que
jamais um humano reagira tão bem após receber um ataque seu. Ele começou a
correr na direção de Zyi, mas pecou na concentração, que foi razoavelmente
quebrada pela reação do seu adversário ao movimento, como se este tivesse sido
inofensivo, e esta foi fatal.
Quando o gorgonite se aproximou para atacar, Zyi balançou sua espada
para machucar o tórax do gorgonite e girou o corpo para ficar de frente para as
costas da criatura azul. O gorgonite virou-se totalmente para evitar dar as
costas para seu adversário e, mantendo seu próprio giro, Zyi enfiou sua espada
vermelha na garganta do gorgonite e a puxou para a esquerda, para que o pescoço
fosse cortado.
O corpo caiu instantaneamente, morto. Zyi embainhou sua espada e suspirou
aliviado.
Enquanto isso, Ghan continuou esquivando-se sucessivamente do outro gorgonite.
Finalmente, num movimento de velocidade extrema, ele aproveitou uma brecha dada
por um ataque desajeitado do seu oponente e cortou a garganta deste, matando-o
com muita facilidade.
Karin, Aya, Erin e Subaru estavam muito assustados. Primeiro, pelo fato
de que eles presenciaram três mortes; segundo, pelo fato de que três gorgonites
foram simplesmente aniquilados pelos seus companheiros, que não deram a menor
chance para três criaturas de uma raça que vinha aterrorizando Huppethay; e
terceiro, pelo fato extraordinário de que Zyi levou um soco de um gorgonite
direto na face e saiu ileso, algo, no mínimo, raro na história dos confrontos
entre as duas raças envolvidas naquele combate.
As mulheres, todas, correram na direção do Zyi para confirmar se este
estava realmente bem, e confirmaram que ele estava ligeiramente tonto:
– Eu estou bem, só um pouco cansado – ele sorriu mostrando-se
bem-humorado.
Karin começou a chorar silenciosamente e abraçou Zyi com muita força
dizendo:
– Eu fiquei muito preocupada! – para Karin, foi muito duro assistir seu
melhor amigo entrar em uma batalha contra um gorgonite e, no momento em que Zyi
foi acertado, um medo enorme tomou conta dela, o de que ele talvez não
resistisse. Entretanto, ela sabia que teria que se acostumar àquilo, pois
situações semelhantes tinham grandes chances de ocorrer ao longo da jornada que
seguiriam.
– Não tenham medo nem horror, esse tipo de cena será uma constante ao
longo de nossa jornada... – Ghan não parecia nem um pouco surpreso com o fato
de seu pupilo ter acabado de assassinar um gorgonite com certa facilidade
diante dele – Medo de sangue e morte é algo que vocês precisam aprender a
controlar e, se possível, superar a partir de hoje... – disse ele seriamente –
A morte desses homens deverá chamar a atenção dos gorgonites, nós temos que
partir agora. – e ninguém conseguiu respondê-lo até que uma voz tímida se
ergueu serenamente entre eles.
– Está bem... – disse Aya, que ainda estava muito assustada com tudo
aquilo, mas que sabia que Ghan estava certo e que não havia tempo a perder.
Eles precisavam se apressar para alcançar o objetivo sem se expor mais daquela
forma.
Eles seguiram para o
leste e deixaram o destruído Vilarejo da Pena para trás. Naquele momento, a
jornada deles com rumo à Cordilheira dos Dragões havia, finalmente, conhecido o
seu começo.