07 dezembro, 2014

Alma Flamejante - Capítulo 4

Capítulo Quatro
A Fuga
Após passar aquele tempo refletindo sobre como conhecera sua melhor amiga, Zyi resolveu andar um pouco pelo vilarejo onde havia crescido. A expectativa de deixar o lugar em alguns dias mexia com ele, afinal, ali era onde havia se criado para o mundo.

Logo que saiu de casa, dirigiu-se à praça central. Lá, não havia a presença de uma pessoa sequer além dele, provavelmente por causa do horário, mas o tempo fechado que se formava no céu também era um convite para que as pessoas não deixassem seus domicílios.
Os pássaros ainda estavam cantando a sua incessante canção e lá estava extremamente pacífico. Canção que nem o frio constante, nem a brisa cortante eram capazes de fazer cessar, para o agradecimento dos habitantes do Vilarejo da Pena.
Zyi começou a observar o céu: estava repleto de nuvens escurecidas, que chegavam a ser um tanto assustadoras. As nuvens acinzentadas estavam agrupadas, tornando fácil a previsão de que a chuva estava para cair, porém, Zyi não queria deixar aquela praça. Sentia em seu peito a necessidade de permanecer ali e contemplar um pouco mais dos seus últimos dias naquele vilarejo onde havia amadurecido como pessoa, na aldeia que tomou conta dele por tanto tempo, onde as pessoas que amava viviam.
Para Zyi, deixar o vilarejo era algo doloroso, pois não havia saído de lá em qualquer oportunidade desde que seus pais faleceram. Não era nenhum absurdo pensar que naquele vilarejo estavam as pessoas que o consolaram nos momentos mais difíceis de sua vida até então.
Entretanto, no fundo, ele estava encarando isso de maneira relativamente positiva porque duas das pessoas mais importantes nesse período iam acompanhá-lo: Karin e Ghan. Além disso, ele ia convidar Aya, que também havia exercido um papel fundamental ao longo de todo o tempo em que se conheciam.
Depois de um tempo sentado sem qualquer companhia, passos começaram a ser ouvidos aproximando-se. O som estava se tornando cada vez mais alto, calmamente e vagarosamente. Zyi não olhou para nenhuma direção além de seus pés, estava ouvindo a aproximação dos passos e, de repente, se virou para ver quem era a pessoa que estava lá...
– Mestre? O que está fazendo aqui? – perguntou Zyi.
– Bem, eu estava a esperar por você em casa, mas como você não apareceu, eu vim aqui te procurar... – disse Ghan com um sorriso sutil em seu rosto – Se um dia após a confirmação da viagem você já está assim, imagina ao longo da jornada...
– Desculpe-me, Mestre, eu me esqueci da aula de hoje... – disse Zyi abaixando a cabeça e juntando as mãos na altura da cintura, fazendo uma reverência.
– Está bem – riu Ghan – Venha comigo agora. – ele fez um sinal com as mãos para que Zyi o seguisse.
Ele o seguiu até que ambos chegaram à casa do professor de espada. Esta era grande e muito larga, o que ocorria porque uma metade era inteiramente destinada ao treino intenso de kendo.
– Entre, por favor. – disse Ghan abrindo a porta cortesmente para que seu aprendiz pudesse, então, adentrar sua morada.
O lugar era imenso: tinha um jardim preenchido com flores e grama, com três bancos e um chafariz. Havia um pequeno caminho de pedras que se bifurcava e levava tanto a casa como ao dojo, o maior aposento de toda aquela estrutura.
Ghan optou por, ao invés de entrar direto na sala destinada às artes marciais, passar pela casa. Ao entrar nela, chegava-se a uma sala com um tapete dourado e branco, uma porta à direita que dava para o dojo, e duas escadas no fim da sala, uma de cada lado, que davam para mezanino, no qual havia uma porta dupla.
À direita, havia uma porta simples que Zyi já conhecia muito bem, já que além dela ficava um dos lugares onde havia passado mais tempo ao longo de seus dezesseis anos de idade. Ele apenas observou seu professor abrir aquela porta para que os dois pudessem ir para o dojo.
Este era quase inteiramente branco e tinha espadas fixadas por toda a parede, da mesma forma que facas, adagas, shurikens, e mais armas laminadas. Além disso, o piso era firme, de forma a não atrapalhar os movimentos, mas suave o suficiente para evitar machucar o lutador após este sofrer alguma queda.
– Sente-se no chão – disse Ghan calmamente, assim que entraram no dojo.
– Está bem – Zyi sentou-se com as pernas cruzadas e apoiando nelas os seus braços. Ghan fez o mesmo e ficou de frente para o seu pupilo.
– Você acredita em mágica, meu jovem? – perguntou aquele professor de kendo com um sorriso em seu rosto.
– Eu não sei – disse Zyi rindo – Eu costumava acreditar quando era criança – Zyi deu bastante ênfase na última palavra – mas, hoje em dia, eu acho que é besteira. – com sua voz, deu a entender que estava falando algo completamente óbvio. Não que pretendesse desdenhar de seu tutor, mas conversar sobre magia era algo visto por ele como um tópico infantil que não deveria ser abordado em uma conversa entre adultos, ainda mais com a situação vivida naquele momento por eles.
– Você devia acreditar! – disse Ghan repreendendo a postura do seu aprendiz prontamente – Você definitivamente devia acreditar! – ele conseguiu confundir seu pupilo: o tom de voz usado na bronca era firme e severo, o que prejudicou o entendimento do Zyi, que não demorou a responder.
– Por quê? – Zyi ficou verdadeiramente curioso, até mesmo pela forma como seu mestre proferiu aquelas palavras. Ainda assim, estava achando esquisita a forma como a conversa estava sendo conduzida, já que Ghan havia introduzido repentinamente aquele assunto e não tivera o cuidado de usar palavras que amenizassem o quão pouco usual era aquilo. Não era difícil concluir que se tratava de algo muito natural para o professor de kendo.
– Você já ouviu falar dos Eluvesos? – questionou Ghan fazendo menção a um nome que aquele jovem já havia escutado. “Aonde ele que chegar?” pensou Zyi.
– Eu achava que eram uma lenda... – respondeu com a voz quase sumindo. Estava sendo absorvido pela curiosidade e, ao mesmo tempo, incredulidade.
– Eles são uma lenda verdadeira, meu rapaz... – ponderou Ghan enquanto gesticulava – Os Eluvesos criaram a magia como ela é – disse enquanto continuava movendo suas mãos numa tentativa de ilustrar o que dizia – Eles descobriram como manipular algumas forças sobrenaturais de Huppethay – suspirou – As palavras mágicas apenas funcionam quando ditas na língua deles, o “Eluveso”, que é usado por muitos magos pelo mundo afora – explicava aquilo com bastante empolgação – Acredite, meu jovem, eu sou um deles...
– Desculpe Mestre, isso é alguma piada? – Zyi estava lutando para segurar o riso – Quero dizer, magia? –enfatizou a última palavra como que achando graça da situação. Ele fez uma pequena pausa e, então, disse – É meio difícil de acreditar... – parou e suspirou – Meio não, muito! Esta conversa está avançando muito rápido e eu não estou entendendo onde o senhor está querendo chegar... – disse o jovem espadachim mantendo-se irredutível quanto a crer no que lhe estava sendo dito por seu professor.
Kildno Falgos – Fogo começou a queimar no topo do dedo de Ghan, bem na ponta, quase que não tocando o próprio dedo, dedo que estava funcionando como se fosse uma pequena vela, mas com uma cera infinita que não se derrete... – O que me diz agora? – o sorriso acabara de mudar de rosto. As ameaças de riso do rapaz mais novo se converteram em olhos arregalados e fixados naquela pequena chama.
Ele demorou a pensar em como responder àquela demonstração visual de como estava errado. Após engolir em seco cada palavra de desdém que dissera instantes antes, o pupilo do Ghan disse:
– Perdão por duvidar do senhor, Mestre. – Zyi gaguejou nas primeiras palavras e manteve um tom de tremenda surpresa na voz. Logo em seguida, a mudança de assunto foi brusca.
– Nós partiremos na noite de hoje... – disse Ghan para o espanto do rapaz ao seu lado, que estava achando difícil pensar em ficar só uma semana a mais no vilarejo, quanto mais partir já naquela noite – Eu sinto que tem algo se aproximando do Vilarejo da Pena e você precisa chegar até a Cordilheira dos Dragões... – ele demonstrava muita cautela em suas palavras – Reúna as pessoas escolhidas, eu vou com vocês, esteja neste lugar hoje à noite – deu mais um sorriso e fez uma breve pausa antes de prosseguir com a sua fala – Eu menti quando disse que nada mais tinha para te ensinar... – balançou o dedo indicador e a chama que ali ardia sumiu – Eu te ensinarei magia ao longo da estrada para a Cordilheira dos Dragões, mas agora, você tem que ir... – ele sorriu para o pupilo – Tome cuidado, meu jovem!
Zyi se levantou e deixou a casa do Ghan sem se esquecer de se despedir apropriadamente. Ele tinha a sensação de ter recebido muita informação para uma só noite e estava confuso. Entretanto, estava feliz por saber que não teria que se afastar do seu mestre, de quem gostava tanto.
“O que foi que ele previu para já querer partir com seis dias de antecedência?” pensou Zyi, “Bem, eu tenho que falar com a Karin e com a Aya”. E com o objetivo de comunicar às pessoas que queria ter como companheiras aquelas informações que ele acabara de receber, seguiu o caminho rumo à casa de sua melhor amiga.

Karin estava deitada em sua cama. O seu quarto era muito bem arrumado apesar de ser pequeno. Havia a cama, feita à base de madeira, e um pequeno guarda-roupa; duas portas tinham lugar ali, uma dando ao banheiro dela e outra diretamente para a sala. As paredes haviam sido brancas no passado, mas Zyi a ajudara com uma nova pintura e, agora, ostentavam um tom suave de rosa claro.
Karin estava pensando sobre o passado e o futuro. “Tudo vai mudar em breve”, pensou ela, “Eu estarei com o Zyi aconteça o que acontecer, onde quer que a gente vá, até quando nós estivermos vivos!”
– Karin! – chamou uma voz proveniente do lado de fora do seu quarto.
– Pode entrar, Subaru... – respondeu Karin evitando gritar, mas, ainda assim, em um tom de voz elevado.
– Estou entrando. – ele entrou no quarto sem fazer muito barulho e, em seguida, fechou a porta e apoiou o seu corpo na mesma.
– O que você quer? – questionou Karin erguendo a sobrancelha direita sem entender a repentina vontade de seu irmão de ir falar com ela, algo que não era muito comum ao longo de sua rotina.
– Você está diferente esses dias... – ele lançou um olhar desconfiado na direção da irmã – É culpa dele, não é? – o tom era de acusação.
– Por que você acha isso? – ela quis desconversar, mas não obteve sucesso.
– É meio óbvio... – ele empregou bastante ironia em seu modo de falar.
– Tudo bem, você é meu irmão, eu acho que posso te contar... – ela tomou um pouco de ar com calma, como que se preparando para soltar uma bomba que tiraria o irmão do sério – Mas já vou avisando que não quero que você crie caso! – Subaru consentiu com o olhar e esperou a irmã dizer – Eu estarei deixando o vilarejo dentro de poucos dias – Subaru perdeu a pose por um instante e, então, se desencostou da porta e procurou palavras para se expressar, mas nada encontrou para retrucar.
– Como? – disse após ser forçado a parar para levar bastante ar ao fundo dos pulmões.
– Eu não vou mudar de idéia – ela disse cada palavra dessa frase individual e lentamente para em seguida completar – Eu vou sair daqui e não há nada que você possa fazer a respeito.
– Você não vai fugir! – estava gritando, irritadíssimo com o que a irmã estava falando. Ele não estava entendendo, e nem queria, o que poderia motivá-la a abandonar o lar, exceto o indivíduo que ele mais odiava naquele lugar?
– E o que você vai fazer? – a pergunta foi fria e seca como a lâmina de uma faca percorrendo o coração de sua vítima. Subaru foi forçado a recuar.
– Ah... Está bem, mas se você vai partir, eu também vou... – ele não tinha como impedi-la, mas ela também não podia fazer o inverso. Sem saber o que estava fazendo, Subaru quis se impor naquela situação.
– Você está louco? – foi a vez de Karin se assustar com as palavras do irmão – Você não vai vir comigo! – ela dizia isso não por não querer a companhia do irmão, mas por ter a noção de que a jornada que se seguiria poderia ser muito dura para ele.
– Ah, eu vou! – desdenhou com um sorriso desgostoso em seu rosto – Você não irá sozinha com ele! – Subaru disse a última palavra com desprezo.
– Por que você acha que o Zyi é tão mau? – disse uma Karin indignada com a postura do intransigente irmão caçula – Ele fez muito por esse vilarejo! – ela suspirou – Todo mundo o ama, exceto você!
– Isso é porque eu sei que ninguém pode ser tão bom! – começou a falar de forma irritada – Eu tenho certeza que aquele infeliz quer alguma coisa e eu descobrirei exatamente o que é!
– Você é louco! – disparou a irmã – Ainda existe gente que não é gananciosa! – ela fazia referência nessa frase ao fato de que Zyi era visto pelos moradores do Vilarejo da Pena como o nobre mais altruísta que já havia passado por ali.
– É, mas ele não se enquadra nesse perfil... – a expressão daquele jovem ainda era de desgosto com relação ao objeto da discussão estavam tendo.
– O Zyi se encaixa nesse perfil, sim! – rebateu Karin – Ele é muito adorável – disse ela de forma a deixar o próprio irmão sem graça – Você não devia falar dessa forma de alguém que você não conhece! – ela foi incisiva e Subaru viu que não havia mais brechas naquela discussão, então parou por ali, o que não significava que ele havia desistido. Muito longe disso.
– De qualquer forma, eu vou com vocês! – ele reclamou novamente, dessa vez sem abrir brechas para quaisquer reclamações da irmã.
– Está bem...  – disse Karin já querendo se livrar da presença do irmão – Deixe-me em paz, agora...
– Certo. – por mais arrogante que pudesse ser, ficou triste ao ver a irmã brava, mas já tinha a quem culpar. E os ressentimentos que guardava contra aquele jovem nobre iam se acumulando constantemente, como uma bola de neve.
Karin levantou-se e conduziu Subaru para fora de seu quarto. Eles sequer se olharam no processo, mas ambos estavam incomodados com as posturas intransigentes um do outro.
Assim que o irmão saiu, Karin trocou de roupa. Ela tirou o seu pijama e vestiu uma calça de lã marrom com uma camiseta vermelha, ela calçou sua sandália e saiu de casa pensando em ir até a praça para pegar um pouco de ar fresco, mas acabou tendo uma surpresa antes de chegar ao seu destino.
No momento em que Karin cruzou a porta, ela encontrou com o rapaz que acabara de defender na conversa com seu irmão: Zyi. Ele estava vestindo o seu quimono de espadachim, que era vermelho, laranja e amarelo, parecendo fogo queimando quando colocadas juntas e em movimento.
Zyi carregava consigo um semblante muito preocupado. Em conseqüência disso, Karin, que logo percebeu a expressão fechada dele, perguntou:
– Zyi, o que houve?
– Nós vamos partir hoje – disse de forma ligeiramente corrida – eu não sei bem por que, mas o Mestre Ghan falou comigo seriamente hoje pela manhã e deixou claro que era necessária a nossa partida na noite de hoje... – concluiu Zyi esperando que Karin fosse se assustar, mas, para a surpresa dele, ela reagiu com relativa tranqüilidade.
– Quem irá conosco? – ela perguntou – Quer dizer, meu irmão insistiu muito dizendo que também quer ir... – ela se mostrou cautelosa sob este aspecto, mas foi a vez do Zyi surpreendê-la.
– Não tem problema – disse calmamente – ele só precisa estar ciente de que será uma jornada árdua... – ponderou enquanto olhava para ela.
– Eu não sei dizer se tem consciência plena disso, mas eu creio que insistirá em vir conosco de qualquer forma... – disse Karin ainda com a feição demonstrando preocupação.
– Deixe que venha, então. – disse Zyi sorrindo despreocupado – Eu convidarei a Aya para nos acompanhar – afirmou – Além do fato de saber que a presença dela nos ajudará bastante, eu sinto que algo de muito ruim acontecerá com ela caso não a tragamos conosco... – suspirou.
– Tudo bem, eu te acompanharei até a casa dela... – Karin sorriu com alegria – Mas espero que essa sua sensação esteja errada de qualquer modo...
– Vamos lá agora, nós ainda precisamos preparar a nossa bagagem – comentou enquanto seu olhar se perdia no horizonte – eu não vou levar nada além de minhas espadas e uma ou duas camisas e calças... – disse Zyi – Creio que não devemos carregar peso excessivo, já que isto pode tornar a nossa viagem mais complicada – afirmou já com uma expressão mais tranqüila em seu rosto, o que combinava mais com ele – eu te aconselho a fazer o mesmo...
– Eu não carregarei nada, exceto meu arco, as roupas que visto, além de um conjunto de reserva, e meu amor por meus amigos e todo esse vilarejo! – ela sorriu e passou a mão no cabelo do Zyi de forma a bagunçá-lo, e então ela sorriu com seus olhos azuis inspirando a tranqüilidade e a paz das quais Zyi tanto precisava naquele momento tão conturbado.
– Bem, vamos indo – disse feliz pelo alívio que encontrar com a Karin havia gerado nele – Nós ainda precisamos falar com a Aya. – e o sorriso crescia singelo em seu rosto.
E eles deixaram a casa da Karin logo em seguida e se dirigiram para a residência dos Prince. Aquele dia estava realmente muito mais atarefado do que Zyi havia imaginado ao acordar. Ele nem imaginava o quanto.

Aya estava sentada em seu jardim com seus olhos perdidos no horizonte celeste. O céu já não mais estava como naquela manhã, mas aberto, cheio de vida e brilhante. “Alguma coisa está para acontecer... Eu posso ver que as pessoas estão agindo de uma forma completamente distinta do tradicional, meu pai está a insistir que eu deixe esse vilarejo no mais curto período de tempo possível com a minha mãe, mas eu ainda não quero” pensou ela.
“Eu quero permanecer perto do Zyi e da Karin, eu os amo e não quero passar o resto da minha vida distante desse vilarejo e dos meus melhores amigos, os únicos amigos que eu, uma pessoa com tanta dificuldade para se relacionar, já tive...” Aya começou a chorar silenciosamente.
Aya teve uma infância muito dura e estava vivendo pacificamente pela primeira vez em sua vida, logo, ela não queria ter os mesmos problemas mais uma vez e, por esse motivo, jamais sequer pensara em sair daquele vilarejo para visitar outros, quanto mais definitivamente. O Vilarejo da Pena era o lugar onde ela crescera e vivera incontáveis aventuras, desafios.
Ela conseguia lembrar-se de cada problema que tinha enfrentado para poder estar ali sentada calma e pacificamente e sabia que havia passado por muita coisa para poder admirar aquele azul celeste reluzente. Aya tinha a perfeita noção de como era o outro lado da moeda, onde pessoas passavam fome e, muitas vezes, arriscavam a própria vida para tentar conseguir um pedaço de pão.
A vida de luxo que ela levava agora não a agradava ao todo, porque ela sabia que era de certa forma uma injustiça que tantas pessoas tivessem quase nada e outras tanto. Entretanto, ela não tinha esquecido suas origens, e freqüentemente ajudava aqueles que realmente precisavam de apoio. Ela também jamais ia esquecer a pessoa que a ajudara para que ela pudesse levar uma vida mais tranqüila dedicada aos estudos, tanto escolares como de arco-e-flecha: Zyi.
Se o jovem nobre órfão não tivesse se empenhado tanto para que ela conseguisse um lar, ela ainda seria uma moradora de rua. Ele era para ela um modelo de muitas formas diferentes, sobretudo pela caridade.
De repente, ela ouviu passos se aproximando, o que a fez parar de pensar sobre a vida e enxugar prontamente suas lágrimas, e alguém erguendo a voz sutilmente para falar com ela:
– Aya, querida, você irá partir ainda hoje do vilarejo com a sua mãe... – a surpresa tomou conta dela – Nós não sabemos exatamente o que é, mas Ghan contou ao prefeito que há algo que está para acontecer e que ele vai partir com Zyi e outras pessoas com quem o mesmo ia falar. – Aya ergueu uma sobrancelha – Eu tive uma conversa de cunho particular com Ghan e você poderá deixar o vilarejo ao lado dele. – ela não sabia se ficava feliz ou triste por ouvir aquilo, afinal, seu pai ia permanecer no vilarejo – Não alimente preocupações desnecessárias, eu ficarei bem e, quando tudo estiver na devida ordem, você estará autorizada a retornar e, novamente, viver conosco. – disse o Senhor Prince, com um sorriso singelo no rosto.
– Obrigado, papai! Eu te amo! – ela abraçou seu pai com força, como se sentisse que nunca mais o veria de novo, e começou a chorar com força.
– Tudo ficará bem por aqui, você ficará bem? – perguntou ele, ela confirmou com a cabeça – Ótimo! Então, arrume suas coisas, não carregue muito peso, pois, para esta viagem, você tem necessariamente que permanecer leve – ele falava com um espírito aventureiro que ela desconhecia – Você lutará por comida, mas se quiser, pode levar um pouco com você – ele sorriu com sua piada, mas, sem que Aya visse, lágrimas escorriam do seu rosto, que tinha uma feição triste de um pai que sentia que estava vendo sua filha pela última vez... Ele não sabia o quão certo ele estava.

Zyi e Karin chegaram à casa de Aya e encontraram com o senhor Prince. Lá, Zyi perguntou a ele sobre Aya e ouviu dele que ela ia partir viagem com Ghan. Então o senhor Prince disse:
– Entrem, vocês podem esperá-la no jardim, enquanto isso, eu pedirei a Erin para que ela prepare um chá para vocês, posso? – disse o gentil chefe da família Prince enquanto observava as expressões confusas dos dois convidados. Ambos ficaram surpresos com o fato de terem sido saudados com a informação de que a amiga deles já estava inclusa na jornada que seguiriam sem que eles precisassem ao menos falar com ela sobre o assunto.
– Muito obrigado, senhor Prince. – disse Zyi, ligeiramente desajeitado.
Eles adentraram o jardim e sentaram-se no gramado. No Vilarejo da Pena, sentar-se no gramado de uma casa é tido como um ato muito educado que mostra a apreciação daquele vergel.
Duas horas depois, o pôr-do-sol estava começando. Um cenário digno da mais bela pintura: o céu estava alaranjado devido ao momento, as nuvens misturavam laranja com branco e, algumas, com cinza; pássaros voavam na direção do Sol em bando e a brisa fazia com que algumas pétalas de cerejeira e folhas esverdeadas complementassem a cena ao serem carregadas pelo ar com destino indefinido. Era uma cena de rara beleza.
Repentinamente, Aya apareceu gritando:
– Zyi! Karin! Eu senti saudades de vocês! Vamos indo? – perguntou como se estivesse encarando aquela situação com muita naturalidade. Tanto Zyi e Karin sabiam que isso acontecia por causa da personalidade dela. Como ninguém, ela conseguia agir com tranqüilidade quanto, na verdade, estava se remoendo com diversas preocupações internas. Eles não sabiam dizer se isso era um defeito ou uma qualidade.
– Claro, vamos, minha mala, se é que posso chamá-la assim, está em casa – ele pensou sobre o trajeto – Temos que pegar a bagagem da Karin e do Subaru também, só então nós iremos para a casa do Mestre Ghan – ele olhou para o pôr-do-sol – Estamos bem atrasados...

Eles se dirigiram à casa do Zyi primeiramente, já que esta era a mais longe e a residência da Karin fazia parte do caminho da morada dele até a do Ghan. Ali, Zyi pegou uma pequena mochila e duas espadas.
Ele confirmou que dentro da mochila havia duas calças, duas camisas e um par de sandálias de madeira. O jovem estava vestindo o seu quimono e calçando outro par de sandálias, adequadas para um espadachim. As espadas eram uma kataná que ganhara de sua mãe e a espada vermelha que achara na tumba de seu pai.
Em seguida, Zyi, Karin e Aya partiram para a casa da Karin. Lá, eles iriam pegar a mala desta e Subaru, que, pelo que imaginavam, ia ter que fazer a mala naquele momento.
Ao chegar lá, Karin gritou antes mesmo de entrar em sua residência, numa tentativa de apressar se irmão:
– Subaru! Você está aí? – ela berrou tão alto que ele ouviria de qualquer parte daquela construção. Zyi só se surpreendeu com o fato de que nenhum vizinho se assustou o barulho.
– Estou aqui! – respondeu Subaru.
– Arrume suas coisas rapidamente, nós já estamos partindo! – disse Karin já dentro da sua residência para pegar sua bagagem.
– Já está tudo arrumado – respondeu o irmão mais novo dela – Sua mala está na sala! – afirmou.
– Ah, obrigado, seja rápido!
Eles pegaram a mala de Karin, que também era uma pequena mochila, e esperaram calmamente por Subaru. Enquanto isso, eles conversaram.
– Por que estamos partindo com tanta antecedência? – ela estava curiosa – O que foi que o Ghan previu? – perguntou Karin mantendo o tom.
– Não tenho idéia – disse Zyi, que também estava curioso com aquela situação – Creio que ele é o único habilitado para responder tal pergunta – ele ponderou – Podemos questioná-lo sobre isso quando chegarmos a casa dele – respondeu Zyi.
– Zyi, seu quimono é muito legal, eu nunca o tinha visto antes... – disse Aya, sorrindo. – Ele lembra fogo, não importa como eu o olhe – e ambos riram.
– Obrigado – Zyi sorriu – Eu não tive muito tempo para botar uma roupa um pouco mais adequada – ele comentou – eu farei isso quando chegarmos à casa do Mestre Ghan – ele afirmou.
– Entendo... Eu estou feliz por estar com vocês – ela sorriu singelamente – Vou tentar não incomodar – e Karin passou a mão na cabeça dela, bagunçando o cabelo preto e liso dela.
– Estamos felizes por contar com a sua presença em meio a nós durante toda essa viagem – disse Karin sorrindo enquanto brincava com o cabelo da amiga.
– Muitíssimo obrigado, eu não sei o que eu teria feito não fosse vocês e esse magnífico convite... – disse Aya com um largo sorriso. Zyi não sabia o porquê, mas tinha certeza que aquela menina estava com uma grande vontade de chorar.
Subaru saiu de casa com uma expressão muito fria: era como se ele estivesse sendo forçado a viajar e ele fizesse questão de mostrar isso. Ele lançou um olhar penetrante na direção do Zyi e disse agressivamente:
– Estou pronto. – Zyi desviou o olhar e se virou, preparando-se para ir embora.
– Então, vamos. – respondeu Karin, sorrindo e ignorando totalmente a grosseria do seu irmão.
Karin estava muito feliz. É verdade que deixar o Vilarejo da Pena não era um grande desejo dela, mas a liberdade que aquela viagem iria proporcionar era como um grande e maravilhoso sonho. Estar livre junto com seus amigos, Zyi e Aya, seu irmão, que mesmo sendo mandão e resmungão, era muito amado por ela, e até mesmo o Ghan, seria uma experiência cuja perspectiva de realização a agradava muito.
Ela mal conseguia esconder o sorriso, o que tornava mais que óbvio que ela transbordava de alegria naquele momento. No entanto, ela estava preocupada também: ela não sabia como Zyi ia lidar com os perigos de viver como algo tão perigoso quanto um Guerreiro Livre.
Os Guerreiros Livres eram homens que não lutavam na guerra para defender uma bandeira, nem viviam em um único lugar, ou seja, andarilhos. Eles lutavam pela sobrevivência e, normalmente, não eram muito habilidosos com espadas, arcos e outras armas, mas os melhores eram ocasionalmente pagos para lutar, matar, entre outros trabalhos semelhantes. Por outro lado, as pessoas não gostavam deles, porque se acreditava que não eram verdadeiramente dignos de confiança, pois podiam mudar sua lealdade dependendo da quantia oferecida. Eles eram vistos pela população como guerreiros desleais e impuros.
Obviamente, muitos Guerreiros Livres eram pessoas boas e confiáveis sobre as quais, o estereótipo de homem cruel não era justo, mas havia os Sanguinolentos, os Guerreiros Livres que aceitam dinheiro para matar. Era claramente impossível fazer a distinção entre um Guerreiro Livre bom e um mal, afinal, um Sanguinolento sabia muito bem que precisava fazer uso de muita hipocrisia e ser muito traiçoeiro, pois se mostrasse quem ele realmente era, não conseguiria cumprir para com seus objetivos.

Eles caminharam durante trinta minutos, conversando bastante ao longo do caminho, até chegarem à residência do Ghan. O tempo pareceu passar muito depressa, de forma que eles se surpreenderam ao chegarem à casa do Ghan. “Já chegamos?” pensou Karin.
– Mestre? – chamou Zyi ao bater calmamente na porta e olhar ao redor, vendo que seu mestre de kendo não estava do lado de fora.
– Entre, Zyi! – chamou Ghan. O jovem nobre percebeu que a voz de seu mestre vinha diretamente da direção do dojo.
Havia uma porta do dojo que dava diretamente para o jardim. Zyi a indicou para seus amigos, chamou-os com um sinal com as mãos e dirigiu-se para ela. Ele a abriu e entrou no lugar onde treinara kendo nos últimos anos e sentou-se no chão, seguido de seus amigos que repetiram o seu gesto.
– Nós somos um grupo grande... – iniciou Ghan privando-se de saudar os recém-chegados – Vai ser mais difícil do que imaginei. – Ghan tocou seu queixo com a mão direita – Eu tinha certeza de que você ia trazer apenas as duas meninas e eu não esperava que a Erin viesse conosco. – ele suspirou – Falando nela, ela está na cozinha preparando nossa última refeição antes de partirmos, afinal, é mais que óbvio que não teremos a menor condição de sobrevivência caso deixemos o vilarejo com fome, como lutaremos por comida sem energia? – ele sorriu, mas foi o único ali a fazê-lo – Iríamos morrer muito rápido – concluiu Ghan com um tom de voz conclusivo.
– Mestre, por que nós estamos partindo hoje? – Zyi foi direto ao ponto de suas dúvidas.
– Meu jovem, os gorgonites estão vindo e você ainda não está preparado para lutar, não ainda. – ele ponderou com uma expressão séria em seu rosto – Eu disse ao prefeito cada detalhe que consegui prever, todos que estão partindo hoje não estão devidamente preparados para uma batalha desse porte... – afirmou Ghan categoricamente – Você, eu, seus amigos e Erin, somos quase inúteis perante a força de um exército de gorgonites – ele parou um pouco antes de finalizar – É por isso que eu tomei essa decisão.
– E nós abandonaremos todos, simples assim, sem nem ao menos fazer um esforço para tentar ajudar? – questionou Zyi com um tom de indignação na voz.
– Sim, nós vamos. – Ghan foi mais direto do que como Zyi queria que fosse – Você ainda não tem a menor condição de compreender, mas se em um dia como hoje, sua alma partir para a companhia divina, é o mundo aqui em baixo que deverá chorar. – ele parecia muito seguro, mas seu pupilo não partilhava do mesmo sentimento – Todos os detalhes serão devidamente explicados quando alçarmos o nosso objetivo principal dessa viagem: chegar com segurança física e psicológica até a Cordilheira dos Dragões.
– Com licença! – disse Subaru – Cordilheira dos Dragões? Por acaso, você está brincando? – ele usava para falar com Ghan o mesmo tom desrespeitoso com o qual tratava o próprio Zyi – Nós não podemos ir para lá! É como convidar a morte para tomar um café na hora do lanche! – concluiu rudemente Subaru.
– Zyi, é esse tipo de coração de galinha que você está trazendo para a nossa tão árdua jornada? – Ghan ergueu uma sobrancelha olhando diretamente para o garoto. Zyi não disse uma só palavra; ele sabia que Subaru não era uma pessoa muito corajosa, muito menos, educada... Subaru, após ouvir tal definição, calou-se completamente e, então, Ghan começou a dar as instruções necessárias:
– Nós partiremos às oito horas em ponto – ele suspirou – Faltam dez minutos para as sete horas, descansem agora porque vocês podem ter toda a certeza de que irão precisar de cada gota de sua energia para saírem desse vilarejo... – eles nem imaginavam o quão certas essas palavras estavam.

O tempo passou rapidamente. Eles comeram a refeição divinamente preparada por Erin e descansaram, uns dormindo, outros sentando, outros olhando o céu estrelado, até que o momento certo da partida chegasse.
O tempo de espera foi repleto de preocupação, eles só conseguiam pensar na enorme quantidade de vidas que iam ser perdidas naquela noite e que eles estavam simplesmente deixando que os habitantes do Vilarejo da Pena fossem cruelmente assassinados, sem qualquer ajuda que fosse. Quanto mais tentavam se livrar dessa idéia, mais ela os assombrava.
Zyi convenceu a si mesmo que ele ia voltar futuramente e ajudar os moradores a consertar tudo aquilo que seria danificado naquela noite. Isso fez a cabeça dele parcialmente, fazendo com que conseguisse se acalmar um pouco e se preparasse para partir com um pouco menos insegurança.
Karin estava muito calma e serena. Ela tinha a consciência de que ela não podia fazer nada naquele momento, o máximo que ela conseguiria era dar algumas flechadas em alguns gorgonites, que, por terem uma pele estranhamente grossa, dificilmente seriam seriamente feridos.
Partir ia ser melhor porque, fazendo isso, ela teria plenas condições de se fortalecer e, depois de muito treinamento e esforço, correr atrás de sua vingança contra aqueles que destruiriam uma parte significativa de sua vida. Ela tinha consciência de que esse pensamento não era nem um pouco nobre, mas era, infelizmente, o mais racional.
Aya pensava de maneira semelhante à Karin. Ela não gostava da idéia de partir, mas sabia que não teria qualquer utilidade concreta e que partindo teria a chance de dar o troco aos gorgonites futuramente.
O único que não se satisfazia de forma alguma era o Subaru. Ele, ao observar aquela fuga, culpava Ghan e Zyi de estarem assassinando o vilarejo e o olhar que ele lançava na direção de ambos revelava o descontentamento do rapaz mais novo envolvido naquela viagem.
Subaru jamais havia deixado o Vilarejo da Pena. Isso era algo que ele sempre desejara profundamente, mas não escapando daquela forma, deixando todos para a morte sem, nem ao menos tentar uma solução. Ele via aquela atitude como algo que mancharia eternamente a honra dele e de sua família.
– Vamos indo. – as palavras do Ghan atingiram como flechas invisíveis todos os presentes – Eu já chequei as suas malas e elas estão leves de forma que não atrapalharão vocês ao longo da viagem – pontuou – Enquanto vocês as carregam em suas costas, talvez, vocês precisem lutar, por isso é fundamental que elas não impeçam certos movimentos. – ele explicou enquanto se movia – Um de vocês trouxe muita roupa, então eu botei o excesso no guarda-roupa. Essas mochilas que agora eu entrego para vocês não são as mesmas que trouxeram para cá – ele mostrou ergueu uma delas com a mão direita. Eram pequenas, feitas com um material que eles jamais haviam visto e assumia um tom predominantemente marrom – elas foram feitas em Brolinios, um vilarejo sem raças específicas que não aparece em mapa algum e é famoso por desenvolver equipamentos que ajudam Guerreiros Livres. – comentou Ghan sem dar detalhes sobre como sabia da existência de um vilarejo que não aparecia em mapas – Eles desenvolvem tecnologias com o auxílio da inteligência dos sistons. – os presentes se entreolharam, mas Ghan ignorou o fato – Essas mochilas colam em suas costas de forma que ao fazerem movimentos bruscos, a mochila não se move, prejudicando seu equilíbrio, mas move-se juntamente com o corpo como se fosse parte dele. – ele demonstrou com a que carregava em suas costas.
– Mestre, eu nunca ouvi falar sobre os sistons ajudarem alguém... – disse Zyi com um ar de curiosidade e, até mesmo, estranhamento.
– Bem, os sistons são uma raça bem misteriosa. – Ghan coçou a cabeça com a mão direita – Eles constroem cidades subterrâneas, para que não sejam facilmente encontrados. – ele riu – São mais um exemplo de povo que mapas não registram e, ainda, há pessoas que negam a existência deles. O fato é que não há registros de um siston que utilize magia, mas a inteligência super desenvolvida deles fez com que eles desenvolvessem tecnologias inimagináveis ao olho humano. – Ghan mantinha seu hábito de gesticular bastante para ilustrar o que falava – Fisicamente, os sistons são seres bem curiosos... – ele sorriu – Eles não respiram pela pele e não têm pernas, mas levitam naturalmente, sem o uso de quaisquer magias... É muito difícil descrever um siston, porque não há nada como eles na superfície. – ele suspirou.
– Bem, eu acho que é melhor nós irmos agora. – disse Erin cortando o discurso do Ghan sobre a misteriosa raça dos subsolos de Huppethay.
Erin era alta, tinha cabelos pretos longos e ondulados, olhos grandes e levemente puxados, boca bem pequena e lábios finos. Era uma pessoa muito magra cujo peso era algo baixo de forma exorbitante.
Eles deixaram a casa de Ghan e se depararam com a escuridão da noite que caíra. Naquele dia, a iluminação do Vilarejo da Pena não havia sido ativada intencionalmente, como uma tentativa de prejudicar os gorgonites que estavam para chegar e não eram acostumados com o lugar.
Eles atravessaram aquela rua escura seguindo os passos de Ghan. A Rua da Cruz do Rei, onde aquela casa se localizava, era muito escura por natureza e com as lâmpadas apagadas a situação se agravava.
– Para onde nós vamos agora, Mestre? – perguntou Zyi – Norte, Sul, Leste ou Oeste? – indicando para as quatro ruas que eles podiam pegar no cruzamento onde se encontravam.
– Leste, Zyi – disse Ghan – e não me chame de Mestre mais... – ele ergueu o indicador direito – A partir da atual data, eu não sou nada, mas um amigo. – Zyi não tinha intenção alguma de obedecer àquele pedido, afinal, ele sempre enxergaria em Ghan o seu professor de kendo e de vida.
O vento estava soprando gelado enquanto eles caminhavam pela rua, estava ficando gradativamente mais escuro. O céu estava decorado com estrelas esplendorosamente belas, mas a luz do luar não estava acompanhando-as, o que prejudicava a visão noturna.
Entretanto, a falta de luminosidade estava ajudando-os. Como eles tinham a intenção de fugir dali, quanto mais difícil fosse localizá-los, melhor. Eles não sabiam até quando poderiam contar com aquele recurso, mas queriam aproveitá-lo.
Ajudando ou não, a vista era assustadora. As árvores que eram visíveis ao longo do caminho dentro da cidade, das casas e fora delas, aparentavam ser parte de um pântano sombrio e sem saída onde pessoas se perdiam e não mais saída encontravam. Dava calafrios observar aquele lugar tenebroso: o Vilarejo da Pena estava cheirando à morte.
Os passos deles próprios eram o único som que eles conseguiam escutar... Eles estavam em estado de tensão, imaginando que, a qualquer momento, um gorgonite surgiria das sombras e usaria seus punhos criados para matar e os nocautearia. Ninguém ousava mexer os lábios com o intuito de proferir quaisquer palavras, pois todos estavam extremamente atentos para cada pequeno som que pudesse de alguma forma estar em curso ali.
O tempo passava devagar para eles enquanto andavam pela cidade quando, de repente, eles ouviram gritos distantes. Estes não eram dos habitantes do Vilarejo da Pena, mas de gorgonites, vozes muito brutas e graves que vinham perceptivelmente da região oeste daquela vila.
Eles podiam ouvir o som dos gritos dos humanos seguidos pelos barulhos de explosões. Então, fogo apareceu e começou a queimar a cidade: os gorgonites já estavam dentro do Vilarejo da Pena. A batalha estava tendo início e a esperança humana de expulsar a raça azul dali era praticamente nula.

Os gorgonites eram nascidos para lutar corpo-a-corpo: as mãos grandes possuíam três dedos que pouco se moviam e não podiam segurar objetos com precisão, mas que também ostentavam uma resistência extraordinária. A pouca sensibilidade da pele fazia com que eles quase não sentissem dor, o que, no calor de uma batalha, era de grande ajuda. A mesma era muito grossa, o que fazia com que eles se livrassem, entre outras coisas, de danos físicos leves.
O sistema imunológico daquela raça era muito eficiente. A quantidade de doenças catalogadas entre eles só não era menor do que as que afetavam os sistons, e a diferença não era grande.
O intenso vigor físico e a habilidade nata para o combate presente em quase todos os daquela raça não se refletia no intelecto: eles tinham uma dificuldade muito grande de desenvolver quaisquer raciocínios complexos. Por esse motivo, jamais os gorgonites causaram tantos problemas como naquele momento histórico de Huppethay.
Eles eram uma raça que seguia quase que exclusivamente os instintos, limitando-se a construir vilarejos mal-acabados e destruir raças que invadissem o território deles. Até o momento em que o atual imperador se auto-proclamara o primeiro a assumir o posto na história gorgonite, a maior sociedade já reunida por indivíduos da raça azul contabilizava doze integrantes. Nada maior foi encontrado em registros históricos espalhados ao redor do mundo.
O que tornava tudo ainda menos usual era o fato de o imperador que estava no poder se tratar de um humano: Gregorius. Ele conseguiu trazer mais indivíduos de sua raça, que acabaram por renegados pelos seus semelhantes que se refugiaram no Lado Leste de Huppethay, e os responsabilizou pela parte estratégica.
Estes fizeram bom uso da força dos gorgonites. Estes, por tratar-se de ordens do Imperador, não questionaram os humanos em momento algum.
Após esse processo, eles estavam, pela terceira vez, mostrando ao Vilarejo da Pena o resultado de toda essa mudança que fez deles uma raça tão temida por toda Huppethay. O resultado era aquela guerra que já perdurava a mais de trinta mil anos, tempo suficiente para três gerações de elfos viverem sem ver paz, e não parecia estar próxima de encontrar o seu fim.

Zyi e os outros começaram a andar mais rápido, pois eles tinham que deixar o vilarejo rapidamente. O som do ataque gorgonite estava ficando mais e mais alto e a preocupação daquele pequeno grupo estava ficando cada vez maior. Não havia a menor possibilidade de um retorno àquela altura.
O portão oeste já estava visível, mas a velocidade com a qual o som dos gorgonites se aproximava era maior do que a deles para alcançá-lo. À medida que os urros da raça azul chegavam até eles, o medo tomava conta de suas mentes ao imaginar que eles ainda corriam risco real de vida.
– Rapazes, por aqui, nós vamos nos esconder até que o ataque esteja completamente terminado – disse Ghan com a feição visivelmente preocupada – É impossível que nós consigamos escapar antes que eles alcancem o portão... – ele resmungou alguma coisa que ninguém além dele próprio conseguiu ouvir – Talvez vocês não tenham devido conhecimento sobre isso, mas os gorgonites são altamente destrutivos... – Ghan os guiou para um beco sem saída, sussurrou uma seqüência de palavras e escadas apareceram, ele desceu as escadas, conduzindo o resto do grupo e então disse:
Knero Rpiasr – As escapas desapareceram juntamente com a vista de todos os membros do grupo.
O breu no qual eles foram envolvidos os deixou, se é que isso era possível, ainda mais tensos. Eles começaram a imaginar o que estava se passando fora dali, o que ia deixando-os ainda mais ansiosos.
Moradores mal-armados contra o exército gorgonite. A escuridão envolvia quem tentava pensar em nada, mas essa opção não parecia estar disponível para aqueles seis, até mesmo por causa das circunstâncias em que os habitantes do Vilarejo da Pena estavam tendo que lidar com tudo aquilo.
Eles ainda podiam ouvir os sons que vinham de fora do buraco onde eles estavam. Eles perceberam a aproximação de gorgonites, que se espalharam por ali, e alguns minutos depois, voltaram a se aglomerar no centro da cidade. Dois gorgonites ficaram para trás e trocaram algumas palavras, que foram ouvidas pelo grupo do Zyi. Estes não entendiam, porém, Ghan fez a tradução simultânea para que eles compreendessem:
– Está todo mundo morto? – perguntou o primeiro gorgonite.
– Não, alguns escaparam, mas matamos quase todos – respondeu o segundo.
Ele está morto, Grunur? – ele enfatizou nitidamente a primeira palavra da frase.
– Talvez, não fale nomes no território inimigo, nós podemos ser ouvidos... – reclamou Grunur.
– É só matar quem nos ouvir... – a violência deles fazia Zyi sentir seu estômago embrulhar.
– Tanto faz, o mestre está nos chamando de volta, nós vamos atacar o portão do norte e então partiremos. – afirmou Grunur.
– Tudo bem, vamos.
Eles esperaram pacientemente até o momento em que os passos dos gorgonites se tornaram completamente inaudíveis e, então, deixaram o seu esconderijo. Dois gritos mostraram o tamanho do erro que Zyi, Ghan e os outros cometeram ao abandonar a segurança do esconderijo armado por Ghan para tentar fugir. Havia três gorgonites, e não dois, e estes, ao verem Zyi e Ghan, que saíram primeiro para conferir se era seguro, atacaram ferozmente.
Eles eram altos, algo em torno de dois metros e meio, e tinham faces que lembravam muito um orc: presas grandes que saiam da boca, a face era gorda, o corpo era completamente azul e tinha músculos bem definidos e fortalecidos. As mãos, que só tinham três dedos, eram estruturas toscas, não serviam para portar armas como espadas, mas intimidavam o oponente pelo dano potencial que poderia ser causado por aquelas estruturas: um humano normal não sobreviveria a uma pancada em cheio na cabeça. Eles estavam vestindo armaduras de metal e elmos de madeira. Havia dois chifres na cabeça de cada um, eram grandes e fortes, amarelos, semelhantes ao formato de um trovão.
Um gorgonite avançou antes dos outros na direção de Ghan, com um ímpeto de quem estava ansioso por ver sangue. Ele correu rapidamente, brandindo seus enormes braços azuis e saltou para tentar atacar Ghan de cima para baixo, mas Ghan, num movimento extraordinário, sacou sua espada e moveu-se saltando e atacando de baixo para cima com a espada posicionada horizontalmente, decapitou o gorgonite no mesmo momento, sem dá-lo a menor chance de sobrevivência.
Os outros dois, que mostraram estarem um pouco assustados com a morte do companheiro, avançaram também, um na direção do Ghan, outro na direção do Zyi. Entretanto, eles tiveram um pouco mais de cautela em seus movimentos, como se estivessem estudando seus oponentes.
Zyi tirou a espada que achara no túmulo de seu pai da bainha e tentou um ataque direto na cabeça do gorgonite, mas este usou o braço na horizontal para defender e atacou girando o outro na direção do tórax do Zyi, que defendeu usando sua espada na vertical para baixo. Rapidamente, Zyi contra-atacou com um ataque visando à cabeça na vertical descendente, mas o Gorgonite esquivou-se com facilidade. O gorgonite começou a girar com os braços abertos tentando encaixar uma seqüência de socos enquanto girava. Zyi esquivou-se do primeiro, do segundo com dificuldade e, no terceiro soco, foi acertado no rosto sendo lançado contra a parede de uma casa que estava atrás dele: a madeira da parede foi quebrada.
Ao mesmo tempo, Ghan estava apenas se esquivando com facilidade dos ataques em seqüência do outro gorgonite, sem desferir ataque algum, como que esperando o momento certo para definir a batalha.
Zyi levantou-se, o que surpreendeu nitidamente o gorgonite, e posicionou-se esperando que o gorgonite tomasse a iniciativa e partisse para um novo ataque. A face de Zyi, que acabara de ser brutamente acertada por um gorgonite, estava apenas levemente ferida, portando apenas um pequeno machucado.
O gorgonite, levemente assustado, provavelmente devido ao fato de que jamais um humano reagira tão bem após receber um ataque seu. Ele começou a correr na direção de Zyi, mas pecou na concentração, que foi razoavelmente quebrada pela reação do seu adversário ao movimento, como se este tivesse sido inofensivo, e esta foi fatal.
Quando o gorgonite se aproximou para atacar, Zyi balançou sua espada para machucar o tórax do gorgonite e girou o corpo para ficar de frente para as costas da criatura azul. O gorgonite virou-se totalmente para evitar dar as costas para seu adversário e, mantendo seu próprio giro, Zyi enfiou sua espada vermelha na garganta do gorgonite e a puxou para a esquerda, para que o pescoço fosse cortado.
O corpo caiu instantaneamente, morto. Zyi embainhou sua espada e suspirou aliviado.
Enquanto isso, Ghan continuou esquivando-se sucessivamente do outro gorgonite. Finalmente, num movimento de velocidade extrema, ele aproveitou uma brecha dada por um ataque desajeitado do seu oponente e cortou a garganta deste, matando-o com muita facilidade.
Karin, Aya, Erin e Subaru estavam muito assustados. Primeiro, pelo fato de que eles presenciaram três mortes; segundo, pelo fato de que três gorgonites foram simplesmente aniquilados pelos seus companheiros, que não deram a menor chance para três criaturas de uma raça que vinha aterrorizando Huppethay; e terceiro, pelo fato extraordinário de que Zyi levou um soco de um gorgonite direto na face e saiu ileso, algo, no mínimo, raro na história dos confrontos entre as duas raças envolvidas naquele combate.
As mulheres, todas, correram na direção do Zyi para confirmar se este estava realmente bem, e confirmaram que ele estava ligeiramente tonto:
– Eu estou bem, só um pouco cansado – ele sorriu mostrando-se bem-humorado.
Karin começou a chorar silenciosamente e abraçou Zyi com muita força dizendo:
– Eu fiquei muito preocupada! – para Karin, foi muito duro assistir seu melhor amigo entrar em uma batalha contra um gorgonite e, no momento em que Zyi foi acertado, um medo enorme tomou conta dela, o de que ele talvez não resistisse. Entretanto, ela sabia que teria que se acostumar àquilo, pois situações semelhantes tinham grandes chances de ocorrer ao longo da jornada que seguiriam.
– Não tenham medo nem horror, esse tipo de cena será uma constante ao longo de nossa jornada... – Ghan não parecia nem um pouco surpreso com o fato de seu pupilo ter acabado de assassinar um gorgonite com certa facilidade diante dele – Medo de sangue e morte é algo que vocês precisam aprender a controlar e, se possível, superar a partir de hoje... – disse ele seriamente – A morte desses homens deverá chamar a atenção dos gorgonites, nós temos que partir agora. – e ninguém conseguiu respondê-lo até que uma voz tímida se ergueu serenamente entre eles.
– Está bem... – disse Aya, que ainda estava muito assustada com tudo aquilo, mas que sabia que Ghan estava certo e que não havia tempo a perder. Eles precisavam se apressar para alcançar o objetivo sem se expor mais daquela forma.
Eles seguiram para o leste e deixaram o destruído Vilarejo da Pena para trás. Naquele momento, a jornada deles com rumo à Cordilheira dos Dragões havia, finalmente, conhecido o seu começo.