06 dezembro, 2014

A Sombra Púrpura

Ao meio-dia, a neve caía incontrolavelmente. Era inverno em Esmeralda, reino conhecido pela peculiaridade de ter apenas uma cidade, a Capital, e incontáveis tribos nômades fiéis ao rei, o feral Lorde Vileak Lilyfield, também conhecido como “O Campeão da Profecia”. Isso era tudo que ela sabia sobre aquela região. Ou quase isso.
Luannah era uma drow caçadora. Como uma legítima representante dos elfos da noite, a pele dela era preta como carvão e seus longuíssimos cabelos lisos eram brancos como a neve. Seus olhos eram de uma variação de cor pouco comum, o que lhe rendera sua alcunha desde a época em que vivia com os seus iguais: a Sombra Púrpura. Tratava-se de uma assassina letal, tanto com o arco como com sua espada ou sua adaga. Sussurrava-se pelos becos mais escuros que a morte era precedida por olhos roxos.
Naquela tarde congelante, Luannah estava em Esmeralda com um objetivo fixo em mente. Ela queria encontrar o acampamento de humanos de Slavia, nação ao sul daquele reino, assassinar o líder e partir. Tratava-se de uma missão simples.
A Sombra Púrpura havia escutado uma conversa entre dois ferais que dava conta de um acampamento humano sem qualquer bandeira cerca de cinco quilômetros ao norte de onde estava. A distância era curta o bastante.
A planície na neve era altamente reveladora, então, Luannah teve o cuidado de buscar as poucas árvores da região como cobertura e, ainda, ter comprado, antes de partir para Esmeralda, uma capa branca que a cobria inteiramente. Assim, em meio a toda aquela neve que caía, era difícil que fosse identificada.
Pouco a pouco, sempre mantendo a cautela em seus passos, a Sombra Púrpura se aproximou do lugar que procurara. Mesmo com a tempestade, não demorou muito para que ela avistasse o seu destino.
Tendas pretas, soldados rondando o perímetro, um estábulo mal acabado com alguns cavalos brancos, nenhuma bandeira à mostra. Mas que invasores indiscretos vocês são, pensou Luannah. Em um lugar com tantas tribos, decerto não imaginaram que chamariam a atenção de alguém.
A Sombra Púrpura percebeu um amontoado de neve grande o bastante para esconder seu corpo e se posicionou atrás dele. Em seguida, ela olhou pacientemente para o acampamento. A neve que caía atrapalhava a sua visão, mas ela enxergava o bastante para concluir que havia guardas estavam fazendo a ronda. O local era grande, tinha tendas para abrigar algo em torno de cinquenta pessoas. É fácil invadir, mas o difícil é não ser vista. Eu não sei como os slavianos estão dispostos lá dentro. Preciso eliminar essa ronda primeiro.
Luannah ficou por duas horas observando enquanto o sol azul dava lugar a uma noite sem lua. Que bom que o inverno tem dias curtos. Durante sua observação, a Sombra Púrpura conseguiu precisar a quantidade de guardas fazendo a ronda. São quatro. Eles não se sentem ameaçados aqui. Os soldados estão muito longe uns dos outros. Se eu matar um, vai demorar bastante até que os outros percebam.
Com o cair da noite, a neve parou de cair, clareando o campo de visão de Luannah e dando a ela uma vantagem imensa contra as suas presas. Enquanto a falta de claridade fazia com que os humanos precisassem usar suas pouco eficientes lanternas de querosene para enxergar algo, drows conseguiam ver perfeitamente, mesmo na escuridão completa, logo, a luz das estrelas era mais que suficiente para a caçadora realizar o seu trabalho.
Pacientemente, a Sombra Púrpura aguardou até que um soldado passasse em algum lugar dentro do alcance de seu arco. Naturalmente, ela manteve a arma preparada. O momento chegou. Era um homem com uma armadura de madeira, que era facilmente visto com a lanterna em sua mão esquerda.
Luannah mirou, soltou o ar em seu peito, relaxou seu corpo, puxou a flecha, inspirou e atirou. O projétil voou no ar, zunindo como um inseto assassino buscando a sua presa. Ninguém ouviu quando o pescoço do soldado foi perfurado. Ninguém ouviu quando seu corpo caiu. Ninguém ouviu quando a lanterna descansou em um canto qualquer daquela camada grossa de neve. Ninguém ouviu o último grito desesperado daquele homem.
A Sombra Púrpura, sem muita delicadeza, soterrou o cadáver com neve, não por compaixão, mas para evitar que aquele homem fosse visto antes que ela tivesse abandonado o local. Apressadamente, Luannah seguiu para o acampamento.
As tendas estavam dispostas em círculo, formando três anéis, um dentro do outro, tendo uma fogueira como centro. Chegando sorrateiramente, a Sombra Púrpura notou que os humanos estavam todos juntos, justamente na parte central. Eu não posso matar o líder deles nessa situação.
Luannah se aproximou se posicionou atrás de uma tenda próxima à fogueira, de modo que ouvia o que se passava no centro, mesmo que nada visse. Onde está o meu procurado?
“O que o chefe vai falar com a gente?”, a Sombra Púrpura ouviu uma voz masculina. Que sorte! Vamos, me deem alguma dica!
“Não faço ideia”, respondeu uma voz feminina. E eles não desenvolveram o assunto, passando a falar sobre suas preferências culinárias. Pelo menos, agora eu sei que o líder vai discursar aqui.
Alguns minutos depois, Luannah ouviu um som nada discreto. Tambores começaram a rufar e, em seguida, um trompete anunciou com três notas a chegada do homem que a Sombra Púrpura buscava. Graaver Urthadar, finalmente, eu te encontrei.
O homem que, naquele momento, subia em um pedregulho para discursar para seus soldados era grande, tinha braços poderosos e portava uma imensa espada de duas mãos em suas costas. Seus cabelos pretos caíam sobre sua testa, numa tentativa ineficaz de esconder uma grotesca cicatriz. Os olhos fundos de quem não dormia direito a dias contrastavam com a concentração que aquele indivíduo demonstrava instantes antes de começar a falar.
“Cidadãos slavianos!” A voz do Graaver era poderosa e parecia inspirar algo por si só. “Hoje, começaremos nossos trabalhos em Esmeralda!” Por um instante, vários soldados fizeram comentários animados entre si. “Silêncio!” E todos se calaram. “Nós conseguimos nos infiltrar com sucesso por aqui e temos muitas coisas para fazer! Escravos não se conseguem do dia para a noite, então precisamos planejar nossas incursões com calma e precisão! Precisamos estar em plena sintonia, confiando no trabalho de todos aqui!” Enquanto ele continuava o seu discurso, Luannah se afastou. A Sombra Púrpura entrou furtivamente em algumas tendas procurando um pergaminho vazio e uma pena com tinta. Na terceira, ela achou. Com pressa, escreveu algumas palavras. Em seguida, amarrou o pergaminho em uma de suas flechas e foi para o anel externo do acampamento, prestando atenção para ver se a ronda aparecia, aliviando-se ao ver que ninguém estava do lado de fora. Eles acham que estão seguros.
Luannah andou um pouco para encontrar um ponto externo de onde enxergasse Graaver, o que não demorou a acontecer. Em seguida, ela pegou o seu arco e mirou. A poderosa voz do líder daquele acampamento se misturou com o som da respiração de Luannah. A drow pegou a flecha com o pergaminho e a encaixou em sua arma. Com muita concentração, ela puxou. O mundo parou por um instante. Estava frio. Luannah suava. Muito. Ela soltou. A flecha se desprendeu do arco e iniciou sua trajetória. Graaver falava com fervor. Seus soldados olhavam seu líder com admiração. A flecha cortou o vento. Luannah observava de longe. As estrelas eram as únicas testemunhas de que a Sombra Púrpura estivera ali. As tendas silenciosas ouviam seu líder enquanto davam esconderijo à algoz do mesmo. Como um inseto que captura a sua presa, a flecha silenciou ao perfurar o pescoço de Graaver. O poder de sua voz acabara de ser amordaçado.
O tempo passou a correr para a Sombra Púrpura. O estábulo espalhafatoso encontrava-se havia poucos metros dela. Luannah correu para lá antes que alguém pudesse pensar em encontrá-la e logo viu um garanhão branco de olhos azuis que deveria ter sido montado muito recentemente, já que a cela ainda estava nele. A caçadora viu que uma corda era tudo que prendia o animal e, sem tempo para desfazer o nó, sacou sua adaga e rompeu a corda. Em seguida, montou no cavalo e o pôs a galopar. Espero que ele não tenha problema com a neve. Não teve.
Em uma questão de poucos minutos, Luannah já estava quilômetros distante do acampamento slaviano. Por dentro, a Sombra Púrpura ria da mensagem que deixara para os humanos. “Nós acreditamos em uma Slavia melhor! Abaixo à escravidão! Estamos aqui e iremos lutar!” Agora eles vão achar que uma revolução está acontecendo entre eles. E o riso de Luannah pôde ser ouvido somente pelo cavalo que a carregava.
“Gostei de você, cidadão”, disse Luannah para o animal. “Vou ficar contigo”. Ela fez carinho no garanhão enquanto ambos sumiam no horizonte, deixando para trás um grupo de escravocratas sem líder.