06 dezembro, 2014

A Lenda de Kum -- 3












CAPÍTULO TRÊS

A Lenda de Kum


Um sentimento ruim invadiu sua alma e um hálito gelado tocou seu rosto.

— Olá Pierson.

Pierson sentiu-se incomodado com aquela voz, feminina, atravessando o ar até o seu rosto. Ele tremeu os lábios e não conseguiu responder de primeira.

— Não precisa ficar com medo. — sussurrou a voz, novamente, em seu ouvido.


Ele saltou para o lado, assustado. Estava impressionado, não ouviu os passos e nem sentiu ninguém se aproximar. Meio hesitante, tentou falar, novamente.

— Quem é você? — indagou, com um pouco de aflição na voz.
— Não fique com medo, Pierson. Eu me chamo Kum, sou… — ponderou —… um demônio.
— Como sabe o meu nome? — perguntou Pierson.

Sentiu uma brisa, com um pouco de areia, açoitar seu rosto, de leve.

— Eu simplesmente sei. E também sei o motivo de estar aqui.

Pierson ainda sem enxergar nada, tentou uma aproximação, audaciosa. Deu alguns passos a frente com as mãos na frente.

— E qual é o motivo?
— Você quer colocar seu povo na caverna. Quer dar um lar para eles. Um lugar para protegê-los da morte que os assombra dia e noite.

Pierson arregalou os olhos. O demônio realmente conhecia seu maior desejo. E ele jamais tinha dito para ninguém. Ouvir aquilo, foi como, escutar seu próprio pensamento por meio de uma voz fria como um lago sombrio.

— Só tem um pequeno problema, Pierson, eu moro nessa caverna.
— Deve haver algum jeito, caso contrário, eu já estaria morto.
— Você é inteligente. Não é em vão que é o líder do povo nômade. Eu posso ajudar, sim. Entretanto, tenho um preço. E digo com toda a propriedade. O custo é caro. Caro demais, talvez, pra você.
— Diga quanto você quer e eu conseguirei. Não importa quanto seja, eu darei um jeito.
— Não estou falando de ouro, Pierson. Meu preço não é material. Quero algo de mais valor. Algo menos palpável.
— Diga logo, o que quer? — bradou Pierson, entre os dentes. Sua voz ecoou por toda a caverna escura e ele percebeu que o local era bem maior do que ele imaginava.
— Mantenha a calma. O grande problema de vocês, humanos, é a curiosidade, excessiva, pelo desconhecido. Responda-me, Pierson, qual é o seu maior medo?
— Mas por que essa pergunta, demônio? Eu não entendo o que isso tem haver com nossa negociação.
— A única coisa que eu não consigo ver nas pessoas, é o medo. Mas, eu preciso ter total conhecimento do negociante para me sentir segura.

Pierson imaginou que poderia ser alguma tática de Kum para acabar com suas vítimas. Ele sabia que se contasse poderia acabar morto na mão daquele ser maligno. Então preferiu inventar alguma coisa para dizer. Assim ele protegeria-se das invasões psicológicas.

— Meu maior medo são as tempestades de areia. — mentiu Pierson, confiantemente.

Houve um pequeno segundo, totalmente silencioso.

— Você mente, Pierson.
— Como pode saber? Você acabou de dizer que não consegue enxergar o medo nas pessoas.
— E é verdade. Eu não consigo ver o medo nas pessoas. Porém, a mentira é visível para mim. Vou-lhe dar apenas mais uma chance. Qual é o seu maior medo?

Pierson parou para pensar, ele não teria chance de sobrevivência, caso mentisse novamente. Não tinha opções. Se quisesse voltar vivo e, talvez, conseguir um novo local para abrigar seu povo. Precisava dizer a verdade e confessar o seu maior temor. Teria que ser aquele medo que habitava o local mais recôndito de sua alma. Parou um segundo e buscou dentro de si aquilo que mais fazia-lhe mal no mundo.

— Tudo bem, demônio... - sussurrou Pierson, arfando pausadamente - O meu maior medo... é a morte. Tenho pesadelos constantes de acabar morto e deixar meu povo a favor do acaso.

Abruptamente, duas pequenas luzes flamejantes acenderam em sua frente. O coração acelerou e tudo ao seu redor parecia desmoronar. Ele estava encarando o próprio inferno. As luzes moveram-se em sua direção e então percebeu que o demônio tinha aberto os olhos. E agora, estava olhando para dentro de sua alma.

Continua…