CAPÍTULO QUATRO
A Lenda de Kum
Enquanto a caverna desmoronava-se ao seu redor, Pierson, percebia que seus pés não tocavam mais o chão. Seu coração estava palpitando dentro do peito e os olhos estavam cerrados com força. As mãos protegiam o rosto da areia, que era jorrada em sua direção. Um som agudo atravessou o ouvido de Pierson.
Ele jogou-se ao chão com as mãos nos ouvidos. A dor era insuportável. O escuro estava engolindo seu corpo. Depois o som estridente e agudo começou a cessar, gradualmente. Tudo parecia acalmar-se ao seu lado. Depois de um tempo, ele arriscou abrir os olhos. Abriu o apenas o olho esquerdo, lentamente, e observou que não havia mais escuridão. Tudo estava claro e havia uma cidade enorme rodeando-lhe. Ele abriu os dois olhos, então, e levantou. Não havia sinal do demônio mais. Ele caminhou, abobado. Seus passos eram descuidados e ele tropeçava, de vez em quando, nas pedras que ainda salpicavam a estrada da cidade. Era uma local com construções de pedra. Parecia ter sido montada, bloco por bloco. As casas erguiam-se, ladeando, Pierson. Mas o que chamou-lhe a atenção foi uma escadaria no final da estrada que elevava-se até um enorme trono de metal. Ele caminhou em direção ao local, seduzido pela imagem de poder. À medida que subia os degraus, mais claro a paisagem urbana revelava-se para si.
Ao chegar no topo da escadaria, observou o trono. Jazia no centro do elevado, coberto por um alpendre. Aproximou-se, lentamente, e tocou no braço de ferro gelado do trono. Parou, abruptamente, e ergueu o olhar ao seu redor. Estava no centro da vasta cidade. Sentou-se no trono, gradualmente, para experimentar a sensação. Era incrível como o assento parecia extremamente confortável. Sentado, no coração da cidade, podia olhar tudo. Era como se fosse um ser superior, que controlava tudo que estava em sua órbita.
Um hálito gelado tocou seu rosto e Pierson, alertou-se. Conhecia aquele sabor de medo.
— Olá Pierson. — disse a voz feminina de Kum.
Pierson virou seu olhar e saltou ao ver a verdadeira forma de Kum. Para seu assombro, era a imagem de uma mulher com um belo corpo moreno de cabelos negro que erguia-se em sua frente. E não a imagem de uma demônio horrendo que lhe tinha olhado o interior da alma.
— Kum?
— Sim, Pierson. Sou eu.
— O que significa tudo isso? — perguntou Pierson, indicando com as mãos, a cidade que rodeava-lhes.
— Esse é o lugar onde você poderá esconder seu povo. Evitar as mortes. Tudo do jeito que você sempre quis. E ainda tem esse trono — Kum caminhou, lentamente, tocando o trono com as unhas afiadas, de cor negra —, que será todo seu. Assim você poderá exercer todo o seu poder diante de seu povo. Poderá ensinar-lhes como viver nesse novo mundo, ditando sua próprias regras. Fazendo com que todos obedeçam à sua voz.
Pierson ficou pasmo com as palavras que era proferidas. O misto de emoções que acometia seu interior parecia não caber dentro de seu próprio corpo.
— Esse lugar é incrível. Mas você não vai me dar isso de graça. Qual é o preço disso tudo?
— O preço da liberdade, Pierson. O preço é um pouco valoroso. Mas olhe para esse lugar, irá valer a pena.
— Qual é o preço? — indagou Pierson, com pesar na voz.
— O preço… — disse Kum, o hálito gelado tocando o rosto de Pierson —… é a sua alma.
