03 janeiro, 2015

A Lenda de Kum -- 6




CAPÍTULO SEIS

A Lenda de Kum


Kum não falou nada, apenas aproximou-se de Pierson e tocou-lhe no rosto com a ponta da unha negra. Os olhos de Kum acenderam em chamas avermelhadas. O fogo atingiu o olhar de Pierson, que pareceu estar em transe.


Pierson sentiu seu corpo flutuar e o tato começara a desaparecer. Em seguida a audição foi diminuindo ao ponto que o único som que escutava era o de uma sirene contínua e aguda. O paladar desapareceu, tornando-lhe insensível a sua própria língua, enquanto estava a salivar dentro da boca. O olfato esvaiu-se e tornou a intuição de Pierson fraca, em relação ao que acontecia ao seu redor. Em pouco tempo, não sentia mais quase nada. O fogo atingiu-lhe o coração e então sentiu arder o peito. A ardência não era dolorida. Era serena e anestésica. Todo o mundo sumiu de sua sensibilidade. Pierson parecia estar jogado no espaço, sem sentir nada. Inerte no vazio silencioso do infinito.

Tudo parecia ter acabado, quando, abruptamente, viu um enorme muro de areia em sua frente. Nada parecia poder atravessar. Após um tempo observando o muro, percebeu que havia algo do outro lado. Entre os grãos de cristal que vibravam, velozmente. Pôde ver os olhos de Kum através das frestas. As chamas tentavam atravessar o muro, mas não conseguiam. Pierson caminhou no nada até aproximar-se do obstáculo arenoso. Ele estendeu a mão para tocar a areia, mas não sentia nada. O muro continuava erguido e não estava cedendo aos esforços. Pierson sentiu-se um pouco agoniado. Percebeu, então, que o muro sofreu certa alteração com seus sentimentos. Ele explorou suas emoções e percebeu que o muro agitou-se mais e a areia tornara-se convulsa. Pierson tentou manter a calma. Tornou seu interior controlado. Sua alma estava plácida. Fechou os olhos para tentar concentrar-se melhor. Respirou fundo algumas vezes, enquanto forçava-se a não pensar. Tudo que sua mente via era uma claridade intensa. Ao abrir os olhos, lentamente, Pierson percebeu que o muro começara a ceder e a desvanecer. O obstáculo foi ao chão e Kum estava lá. No outro lado. Mas não era mais a figura atraente feminina de outrora. Agora era uma silhueta macabra de um ser escamoso com uma cauda que assemelhava-se a um ferrão. Os olhos vermelhos eram penetrantes. O monstro em quatro patas caminhava, fazendo Pierson estremecer tudo o que restara de seus sentidos. Abruptamente, de uma única vez, os sentidos retornaram para Pierson. Em um turbilhão de sentimentos, Pierson pareceu ter recebido uma pancada no meio do peito. A cabeça latejava e o sangue escorria pelos olhos. Ele levou a mão ao coração para tentar ouvir as batidas. Confirmou que estava vivo e levantou, sozinho, em cima do trono, no topo da cidade. Só e com o poder do mundo sobre o corpo, sentia-se invencível. Revigorado e extremamente agitado.


Desceu as escadas da cidade, velozmente. Atravessou as estradas de pedra com facilidade e logo estava de volta a caverna. Não via a hora de contar para seus semelhantes sobre a descoberta. Não iria entrar em detalhes. Seus sacrifícios tinham sido altos demais e não queria alertar as pessoas. Logo apareceu na entrada da caverna e com os olhos fulgurantes, exclamou: — Estamos salvos!