CAPÍTULO CINCO
A Lenda de Kum
— Minha alma? — indagou Pierson, com espanto na voz. Seus olhos arregalaram-se e ele balançou a cabeça, veementemente — O preço é muito caro. Não posso pagar por tal coisa. Deve haver uma outra forma de pagar.
— Eu gostaria que houvesse. Mas não há. O preço é fixo e não irá mudar.
— Não pode ser, Kum. Eu não gosto do tom dessa proposta. Como poderei ceder-lhe minha alma. Isso não faz sentido. Não terei vida para aproveitar o prêmio.
— Pierson, meu belo homem. Escute com atenção. O que estou pedindo é apenas a promessa de sua alma. Ao aceitar os termos, irei governar ao seu lado. Terei certa… — ponderou Kum —… influência sobre suas decisões, mas não é algo que precise se preocupar.
Pierson ficou um pouco confuso. Estava a pensar se o que ouvia era mesmo o que parecia ser na realidade. Demônios podiam ser bem persuasivos, mas precisava pensar com clareza. Como poderia exercer influência sobre suas decisões? Talvez ele estivesse falando em dar conselhos diante de seu reinado. Mas não. Não seria dessa forma. Demônios gostam de atormentar pessoas e fazer-lhes sofrer. Havia algo errado que Pierson não estava conseguindo compreender naquela proposta. Era muito perigoso arriscar um trato com demônios. Por mais que aquele lugar, a ideia de poder e a proteção do seu povo fosse importante para Pierson, precisaria pensar muito mais antes de aceitar uma proposta demoníaca.
— Não me ficou muito claro o seu desejo, Kum. O que eu exatamente iria perder, aceitando a sua proposta?
— Bem, Pierson. Você iria deixar que eu fizesse de sua alma minha morada. Eu não iria atrapalhar-lhe muito. Mas no final de sua vida, eu iria retomar o que é meu por direito. É uma proposta justa, Pierson. Aceite e nunca mais precisará preocupar-se com seu povo.
Pierson ponderou. Estava realmente a fazer sentido. Ele sempre esteve disposto a fazer sacrifícios para com o seus companheiros nômades. Talvez fosse realmente uma ideia a se pensar. Com tudo o que estava acontecendo do lado de fora da caverna, tinha tido muita sorte de ter encontrado aquela caverna e agora essa cidade. Seria a resposta para todos os seus inúmeros problemas.
— Não estou completamente seguro ainda Kum. — disse Pierson, voltando-se para sentar no trono — Se eu aceitar, eu ainda terei controle sobre meu próprio corpo?
— Sim. Terá algum controle de seu corpo. Posso garantir-lhe.
— Se eu quisesse aceitar, o que precisaria fazer.
— Basta permanecer sentado no trono e deixar que eu faça o resto. Irei entrar em sua mente. Você precisará baixar os muros e deixar-me entrar. É bem simples.
— Antes de qualquer coisa, como poderemos sobreviver aqui embaixo, sem comida?
— Não precisa se preocupar. Eu irei acabar com a fome do seu povo para sempre.
Pierson, parou, olhou para um local distante ao longe. Estava reflexivo, imerso em seu interior. Respirava profundamente, tentando pensar com clareza. Para ele, ajudar seu povo, era, sem dúvida, o seu maior sonho. E agora estava sendo-lhe entregue, de forma, demasiada, singela. Ele voltou seu olhar para Kum. Por um instante, sentiu-se, atraído pela beleza deslumbrante do demônio.
— Eu aceito seus termos, Kum.
