28 agosto, 2014

Julian - Parte 1

Julian estava tenso naquela noite que encerrava o quarto mês do ano. Seus cabelos negros trançados balançavam levemente com o vento enquanto seus olhos escuros fixavam-se compenetrados no horizonte aguardando qualquer movimento que indicasse o retorno da patrulha.
Com sua espada bastarda guardada em sua cintura e sua armadura feita com ligas de metal negro, o guerreiro aguardava ansiosamente sem saber qual seria o resultado. A atividade de criminosos tem sido intensa nessa região, pensou o guerreiro.
Enquanto aguardava, o calor fez com que as gotas de suor brotassem e escorressem pela pele negra dele, que tentou se desfazer das mesmas com sua mão esquerda. Entretanto, o gesto fora pouco efetivo.
A lua já se aproximava do topo do céu, indicando a chegada da metade da noite, e a patrulha composta por três de seus amigos ainda não retornara. Julian recebera ordens expressas de Mark, chefe da expedição ao sul de Omnia, para não deixar o acampamento, mesmo que eles não voltassem. A Annabelle e o Robert estão lá... Vai ficar tudo bem... Tentava se convencer Julian, que diligentemente guardava o seu posto.
Sisial’eunte Coedwigoed: essas palavras davam nome à floresta onde Julian estava. O seu significado era tão obscuro para ele quanto o conhecimento sobre o paradeiro dos seus companheiros. Certo era que o vento soprava constantemente naquele lugar e o preenchia com o farfalhar das folhas que soavam como pessoas sussurrando. Em alguns momentos, quando o vento se intensificava, a impressão que dava era a de que ele começava a uivar. Era isso que acontecia naquele instante.
Mesmo com o intenso vento que começava a atingi-lo, Julian se recusava a deixar o seu posto. Ele sabia muito bem que a disciplina de acatar ordens vencia guerras. Por outro lado, o guerreiro tinha a perfeita noção de que, caso a patrulha não retornasse, ele estaria em sérios apuros.
Mais uma hora se passou e a única mudança no cenário notada por Julian foram as variações na velocidade do vento. Soprando sem cessar, o som soava sobre os sete cantos da floresta.
Repentinamente, Julian ouviu um som vindo do meio da mata. Em um piscar de olhos, o guerreiro já tinha em punhos a sua espada e seu corpo já assumira posição de combate. Na fração de segundo seguinte, Julian guardou sua arma. Annabelle chegou ao acampamento. Sozinha. Ferida.
A moça de pele morena e longos cabelos pretos cacheados estava vestida com o seu robe da Guilda Arcana de Omnia, mas o mesmo se encontrava rasgado em tantos pontos que era quase um milagre que aquela maga não estivesse inteiramente nua àquela altura. Em diversos pontos do seu corpo, o vermelho do sangue que escorria podia ser detectado. Além disso, o olhar de Annabelle exalava medo.
“Anna”, disse Julian. “O que aconteceu?”
“Vamos sair daqui!” respondeu a maga em desespero. “Precisamos fugir!”
“Mas e os outros?” questionou o guerreiro. “Vamos largá-los?”
“Não dá mais tempo!” desesperou-se a moça. “Temos que ir!”
“Acalme-se, mulher!” Julian quase gritou. “O que aconteceu?”
“Não dá tempo!” Annabelle estava quase chorando. “Eles vão nos alcançar! Os outros estão mortos, Julian!” As palavras dela deixaram em choque o guerreiro. Menos de dois segundos depois, ouviu-se o barulho do balançar das folhas. Entretanto, não era o vento mais uma vez. “Corre!” E a maga se pôs a correr desesperadamente, sendo seguida de perto por Julian.
“Do que estamos fugindo?” questionou o guerreiro.
“De seres apavorantes!” respondeu a maga. “Para de fazer perguntas e corre!”
Confiando em sua amiga, Julian correu. O peso de sua armadura dificultava o processo, mas ele sabia que não podia desistir. Eu nunca vi a Annabelle tão assustada, pensou o guerreiro.
“Droga!” Julian ouviu Annabelle gritar alguns metros à sua frente. Antes que pudesse questioná-la sobre qualquer coisa, o guerreiro viu. Eles haviam corrido direto para um penhasco. Em seguida, o barulho que os perseguia se intensificou. Julian e Annabelle não tinham para onde fugir.
“Vocês não podem atrapalhar o trabalho de La Belle Dame sans Merci!” A voz detentora dessas palavras era macabramente rouca. Em seguida o ser se revelou e Julian entendeu o desespero de Annabelle. Diante deles estava um lich.
Julian tentou de forma abrupta atacar aquela criatura das trevas, mas foi nocauteado com um único golpe e tudo ficou preto. Acordou algumas horas depois, o cadáver de Annabelle ainda estava fresco ao seu lado. Entre a dor da perda e o alívio da sobrevivência, uma pergunta se fixou na mente do guerreiro.
Por que eu ainda estou aqui?