Julian estava tenso naquela noite que
encerrava o quarto mês do ano. Seus cabelos negros trançados balançavam
levemente com o vento enquanto seus olhos escuros fixavam-se compenetrados no
horizonte aguardando qualquer movimento que indicasse o retorno da patrulha.
Com sua espada bastarda guardada em
sua cintura e sua armadura feita com ligas de metal negro, o guerreiro
aguardava ansiosamente sem saber qual seria o resultado. A atividade de criminosos tem sido intensa nessa região, pensou o
guerreiro.
Enquanto aguardava, o calor fez com
que as gotas de suor brotassem e escorressem pela pele negra dele, que tentou
se desfazer das mesmas com sua mão esquerda. Entretanto, o gesto fora pouco
efetivo.
A lua já se aproximava do topo do
céu, indicando a chegada da metade da noite, e a patrulha composta por três de
seus amigos ainda não retornara. Julian recebera ordens expressas de Mark,
chefe da expedição ao sul de Omnia, para não deixar o acampamento, mesmo que
eles não voltassem. A Annabelle e o Robert estão lá... Vai ficar
tudo bem... Tentava se convencer Julian, que diligentemente guardava o seu
posto.
Sisial’eunte Coedwigoed: essas
palavras davam nome à floresta onde Julian estava. O seu significado era tão
obscuro para ele quanto o conhecimento sobre o paradeiro dos seus companheiros.
Certo era que o vento soprava constantemente naquele lugar e o preenchia com o
farfalhar das folhas que soavam como pessoas sussurrando. Em alguns momentos,
quando o vento se intensificava, a impressão que dava era a de que ele começava
a uivar. Era isso que acontecia naquele instante.
Mesmo com o intenso vento que
começava a atingi-lo, Julian se recusava a deixar o seu posto. Ele sabia muito
bem que a disciplina de acatar ordens vencia guerras. Por outro lado, o
guerreiro tinha a perfeita noção de que, caso a patrulha não retornasse, ele
estaria em sérios apuros.
Mais uma hora se passou e a única
mudança no cenário notada por Julian foram as variações na velocidade do vento.
Soprando sem cessar, o som soava sobre os sete cantos da floresta.
Repentinamente, Julian ouviu um som
vindo do meio da mata. Em um piscar de olhos, o guerreiro já tinha em punhos a
sua espada e seu corpo já assumira posição de combate. Na fração de segundo
seguinte, Julian guardou sua arma. Annabelle chegou ao acampamento. Sozinha.
Ferida.
A moça de pele morena e longos
cabelos pretos cacheados estava vestida com o seu robe da Guilda Arcana de
Omnia, mas o mesmo se encontrava rasgado em tantos pontos que era quase um
milagre que aquela maga não estivesse inteiramente nua àquela altura. Em
diversos pontos do seu corpo, o vermelho do sangue que escorria podia ser
detectado. Além disso, o olhar de Annabelle exalava medo.
“Anna”, disse Julian. “O que
aconteceu?”
“Vamos sair daqui!” respondeu a maga
em desespero. “Precisamos fugir!”
“Mas e os outros?” questionou o
guerreiro. “Vamos largá-los?”
“Não dá mais tempo!” desesperou-se a
moça. “Temos que ir!”
“Acalme-se, mulher!” Julian quase
gritou. “O que aconteceu?”
“Não dá tempo!” Annabelle estava
quase chorando. “Eles vão nos alcançar! Os outros estão mortos, Julian!” As
palavras dela deixaram em choque o guerreiro. Menos de dois segundos depois,
ouviu-se o barulho do balançar das folhas. Entretanto, não era o vento mais uma
vez. “Corre!” E a maga se pôs a correr desesperadamente, sendo seguida de perto
por Julian.
“Do que estamos fugindo?” questionou
o guerreiro.
“De seres apavorantes!” respondeu a
maga. “Para de fazer perguntas e corre!”
Confiando em sua amiga, Julian
correu. O peso de sua armadura dificultava o processo, mas ele sabia que não
podia desistir. Eu nunca vi a Annabelle
tão assustada, pensou o guerreiro.
“Droga!” Julian ouviu Annabelle
gritar alguns metros à sua frente. Antes que pudesse questioná-la sobre
qualquer coisa, o guerreiro viu. Eles haviam corrido direto para um penhasco.
Em seguida, o barulho que os perseguia se intensificou. Julian e Annabelle não
tinham para onde fugir.
“Vocês não podem atrapalhar o
trabalho de La Belle Dame sans Merci!” A voz detentora dessas palavras era
macabramente rouca. Em seguida o ser se revelou e Julian entendeu o desespero
de Annabelle. Diante deles estava um lich.
Julian tentou de forma abrupta atacar
aquela criatura das trevas, mas foi nocauteado com um único golpe e tudo ficou
preto. Acordou algumas horas depois, o cadáver de Annabelle ainda estava fresco
ao seu lado. Entre a dor da perda e o alívio da sobrevivência, uma pergunta se
fixou na mente do guerreiro.
Por que eu ainda estou aqui?